A torneira pingava sem parar. O rolo de papel beijava o chão molhado. A toalha estava embolada, largada em cima do vaso sanitário. Sentado no chão do banheiro, perguntava-se por que havia feito aquilo.
Da porta, entreaberta, podia-se ver o quarto. A cama, na verdade. E lá estava ela. Nua. O lençol parcialmente a cobrir o corpo. O travesseiro e o cobertor no chão. Algumas velas, apagadas, decoravam o cômodo. Assim como alguns adesivos espalhados pelas paredes mal pintadas. A luz da lua iluminava o ambiente.
Estava nu. Seu olhar parecia perdido. Os ombros caídos, desamparados. As mãos sujas – mas de uma sujeira difícil de se limpar. As pernas estiradas, desconsoladas. A mente ocupada com todo tipo de pensamento - prevalecia o arrependimento.
A noite anterior começara muito bem. Após sair com amigos do trabalho, encontrara Madalena. Morena. Alta. Misteriosa. Bonita. Seu sorriso e seu charme a tornara a única pessoa interessante daquele local. Seu perfume… sentia-se de longe. Como se tocasse o coração. Ajeitara as mãos antes de se levantar.
A conversa ficara agradável. Os amigos se foram que ele nem percebera. Depois de alguns copos de bebida, inevitável terminar em outro local senão em um quarto de motel próximo ao bar.
Escolhera o primeiro quarto vago. Dera entrada às 23h. Agora, às 2h, buscava sair. Mas, aonde ir?
Respirou fundo. Resolveu tomar um banho. Quanto mais se esfregava, mais se sentia contaminado. Arranhava-se ao tentar tirar a imundícia. Inútil. A respiração denunciava sua angústia. Sentou-se no chão. O chuveiro permanecia ligado. “Como sairei disso?”. Seus olhos se moviam de um lado a outro. Não obteve resposta.
Desligou o chuveiro. A torneira ainda pingava. Saiu sem se enxugar. Vestiu-se. Olhou para ela. “Quem é você?”.
- Sua condenação.
Assustou-se. Não havia mais ninguém naquele minúsculo quarto. Muito menos no banheiro, onde estivera por cerca de uma hora. Da janela não via ninguém. Pela fechadura da porta também. Seu coração acelerou. A garganta secou. Suas mãos passaram a suar.
Fechou a janela. Passou a cortina. Sentou-se no chão. Levantou-se. Abaixou-se. Com as mãos nas costas dela, aproximou o ouvido. Nenhum som saía de sua boca. Sentou-se novamente. De tão desesperado, cochilou.
Acordou. Eram 4h15. Levantou-se, passou uma água no rosto e parou diante da porta. Respirou fundo por três vezes. Abriu-a e saiu, tendo cuidado ao fechá-la.
Deu saída na recepção. Notaram que estava só – geralmente acontecia isso. Nada questionaram. Pegou um táxi.
Ao passar por uma delegacia, pediu para que o taxista parasse. Pagou, sem atentar para o valor cobrado. Saiu. Subiu as escadas, vagarosamente. Parou diante da porta. Entrou e falou com um policial.
- Posso ajudá-lo?
- Quero me entregar.
- Que crime cometeu, filho?
Ficou em silêncio, a olhar para o nada.
- Que crime cometeu, filho?
Olhou para o policial. Perdeu o controle da respiração. Sentou-se e começou a chorar. Tirou a aliança do bolso. Mostrou-a para o policial.
- Eu… eu traí minha esposa.