Não é certo a origem do Dia da Mentira. Segundo o Guia dos Curiosos, tudo começou em 1582, na França, quando o rei Carlos IX determinou a mudança do Ano Novo para o dia 1o de abril – a data antes era 25 de março. Alguns franceses não gostaram da idéia. Então, gozadores passaram a ridicularizá-los, enviando convites a festas inexistentes, além de presentes esquisitos.
Todos sabem que a mentira vem do diabo. Mas poucos sabem o que a bíblia diz a respeito de “brincadeiras”. Em Provérbios 26:18-19 está escrito:
“Como o louco que lança fogo, flechas e morte, assim é o homem que engana a seu próximo e diz: Fiz isso por brincadeira”.
Mentir não traz benefício algum. Há aqueles que acreditam que exista “mentira-boba”, que faz bem, que não prejudica a ninguém. Isto é engano. Contudo, é certo que algumas coisas não se deve dizer, mesmo sendo verdade – a sinceridade excessiva pode comprometer uma amizade.
O que a Palavra indica é que a “brincadeira” só tem malefícios. O louco que lança flechas pode acabar machucando alguém, mesmo sem intenção. O fogo [a mentira] rapidamente - a depender da área – se espalha e contamina.
Um exemplo de “brincadeira” foi o que aconteceu em 1938, nos Estados Unidos. Uma adaptação de A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, por Orson Welles causou pânico generalizado. Na época, o rádio era o meio de comunicação pelo qual todos se informavam – e confiavam. Não havia televisão.
Leia a reportagem de Ademir Fernandes.
O dia em que os marcianos invadiram a América
por ADEMIR FERNANDES
Agência Estado
SÃO PAULO – O Halloween – a Noite das Bruxas – chegou um dia antes, em 1938, e de forma inesperada para os americanos, acostumados às inevitáveis brincadeiras do 31 de outubro. Na noite do dia 30, muitos dos seis milhões de ouvintes da rede CBS e suas filiadas levaram a sério o que ouviam pelas ondas do rádio: os marcianos estavam invadindo os Estados Unidos!
De acordo com os relatos da época, quem estava na zona rural correu desesperadamente para a cidade, e cruzou com quem estava na cidade e procurava refúgio no campo. Os telefones das delegacias de polícia não paravam de tocar e os gritos de socorro ecoavam pelas ruas. Foi o caso mais célebre de histeria coletiva da História, segundo um estudo publicado pelo professor Hadley Cantril, da Universidade de Princeton.
Os gritos, choros e preces desesperadas deram lugar aos risos e, em boa parte dos casos, às imprecações, quando se soube o que realmente estava acontecendo: tratava-se de uma adaptação radiofônica do livro “A Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells, feita por Orson Welles para o programa “Mercury Theatre On The Air”, que havia estreado no dia 11 de setembro do mesmo ano e ia ao ar das 20 às 21 horas. Em sua tese, o professor Cantril atribuiu a reação popular a três causas: insegurança pessoal, insegurança econômica e insegurança política.
Naqueles tempos, a voz de Hitler já ecoava assustadoramente pela Europa e o rádio era o mais poderoso veículo de comunicação. Roosevelt fazia previsões otimistas em seus discursos, garantindo que o perigo da depressão econômica estava afastado. O ventríloquo Edgard Bergen, pai da atriz Candice Bergen, fazia sucesso com as piadas contadas através de seu boneco Charlie McCarthy e os ouvintes se deliciavam com os clássicos de Toscanini e dançavam ao som de Benny Goodman. No Brasil, Dorival Caymmi lançava seu sucesso “O Que é Que a Baiana Tem?” – que também invadiria os Estados Unidos mais tarde, na voz da “alienígena” Carmem Miranda.
A INVASÃO – No começo da transmissão, Welles se apresentara como um certo professor Pierson, “famoso astrônomo do Observatório de Princeton”, e declarara pelo rádio, na forma de entrevista, que estava ocorrendo uma série de fenômenos na crosta do planeta Marte. Na verdade, a “entrevista” era tirada do livro “A Guerra dos Mundos”, escrito em 1898 por H. G. Wells, mas o tom de seriedade fez com que muitos ouvintes achassem que tudo era verdade.
Na sequência da transmissão, a emissora informou que um disco voador havia aterrissado numa pequena fazenda em Grovers Mill, Estado de Nova Jersey – perto de Nova York. Logo depois, informava em tom sensacionalista que outros discos teriam pousado em várias partes do país. A transmissão teve direito até ao pronunciamento de um hipotético secretário do Interior, “diretamente de Washington”, admitindo a gravidade da situação e pedindo calma aos moradores.
Especialistas no estudo do comportamento humano comentaram em entrevistas aos jornais da época que “os ouvintes estão sempre prontos a acreditar no que uma autoridade oficial diz” e, por isso mesmo, o pânico foi generalizado. Para complicar ainda mais a situação, naquele momento os americanos temiam uma “invasão” de alemães ou chineses.
Depois do episódio, Welles tornou-se uma celebridade mundial e foi contratado por Hollywood para escrever, produzir, dirigir e atuar em filmes nos estúdios da RKO. Os artistas que participaram da famosa adaptação radiofônica foram chamados para integrar o elenco do antológico Cidadão Kane, considerado um dos mais importantes filmes de todos os tempos.
Entre as inúmeras histórias sobre o trauma causado pela transmissão está a de vários cidadãos que tiveram de ser resgatados seis semanas depois por voluntários da Cruz Vermelha nas montanhas de Dakota, pois eles se recusavam a acreditar que tudo não passara de ficção. E uma ingênua operária mandou a seguinte carta a Orson Welles: “Quando aquelas coisas aconteceram, eu achei que a melhor coisa a fazer era dar no pé. Então, peguei os 3,25 dólares que havia economizado e comprei uma passagem. Após ter viajado 16 milhas, ouvi dizer que era tudo uma peça. Agora estou sem o dinheiro e sem os sapatos que ia comprar com ele. O senhor poderia, por favor, mandar alguém me entregar um par de sapatos pretos, tamanho 9 B?”