A força de Marivaldo
Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 07/12/2009
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Marivaldo fazia força para levantar aquela pá com entulho. Suava. Suava muito. O suor escorria pela sua face, suas pernas tremiam e seus braços franzinos davam a sensação de partir a qualquer instante. Sentia-se oprimido. E mais humilhado diante de Norberto, o Betão, um negão de 90kg.
Enquanto o mirrado Marivaldo jogava três pás de entulho no contêiner, Betão completava dez – assobiando. Enquanto o lento Marivaldo carregava um saco de cimento daqui-para-ali, Betão empilhava cinco daqui-para-depois-de-lá.
Marivaldo dava sinais de desistência. Não queria bancar o forte e perder os braços. Melhor ser envergonhado do que passar meses de repouso em cima de uma cama. Estava decidido. Olhou para Betão e falou:
- Cara, não dá mais.
- O quê?
- Não dá mais.
- Força no diagrama (diafragma), enterra a pá e lança o entulho.
Ele não queria saber: era o momento de desistir.
Nesse momento, ao soltar a pá, eis que surge Nildicéia, o seu amor. Ele tinha de dar uma boa impressão.
Retoma a ferramenta, contrai o diafragma, enterra a pá e levanta com extremo sacrifício. Suas mãos tremem, seus braços tremem, suas pernas tremem. As veias do pescoço incham, a ponto de explodir. Ele trava os dentes, fixa o semblante. O suor toma conta de sua face. Levanta a pá e lança o entulho.
Nildicéia vislumbra sua força e exibe um tímido sorriso. Marivaldo ganhava o dia.
Marivaldo está sem forças. Sua garganta está seca. Apenas espera o sumir de Nildicéia para desabar no chão e se entregar ao cansaço.
O entulho sobe, atravessa o contêiner e encontra um ônibus que passava naquele momento. Uma janela entreaberta e uma mulher no local errado são o destino daqueles pedaços de pedra, piso e areia.

Nunca mais tinha lido uma crônica sua! \o/
Agora, viajei no final… =/