Verbos

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 01/03/2010

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A professora entra na sala e já vai sentenciando:

- Hoje não estou para brincadeiras. Nada de gracinha.

- O que aconteceu, pró?

- Fui advertida pela Direção. Não estou cumprindo o programa. Não estou cumprindo o programa no tempo necessário. Estamos atrasados. E tudo por não mandá-los para lá quando preciso.

Então, ela começou a falar sobre Verbo. Os verbos regulares, irregulares, abundantes, defectivos…

- Regular é quando o verbo é regular. Essa é mole. – disse Alan.

- Abundante? Tem vários alguma coisa. – enrolou Julia.

- Possui mais de uma forma para uma mesma flexão. – explicou a professora.

- Como assim?

- Aceitado e aceito. Acendido e aceso. Usamos o particípio regular, final ADO, depois de TER e HAVER e o outro, o particípio irregular, com SER e ESTAR. Exemplo: Eu havia limpado a cozinha. A cozinha foi limpa por mim.

- Legal.

- E o defectivo? Ivanilton?

- Defectivo… Defectivo… Vem com defeito?

- Podemos dizer que sim. Ele não apresenta conjugação completa. Exemplo: não existe a primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo FALIR. “Eu falo? Falho?”. Falir é defectivo. Demolir: “Eu demolo?” Não existe. O restante sim: Tu demoles; Ele demole…”

- Nós demomoles… – continuou Ivanilton.

- Eles deromoles… – completou Arnoldo.

Objetivos de ano novo

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 05/01/2010

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Todo final de ano as pessoas pensam no que alcançar no ano que chega. Casamento, emprego novo, filhos, enfim, vida nova. Há uma expectativa e esperança preenchendo o coração de cada um. A certeza da vitória é enorme. Mas, para alguns, basta Janeiro entrar e os planos tornam-se inalcançáveis.

Julio ainda não havia começado sua lista de objetivos que conquistaria em 2010. Inúmeras coisas lhe passavam pela mente, mas ele queria apenas aquelas que teria a certeza de alcançar. Nada de viagens internacionais, emagrecer 10 quilos em dois meses ou escrever um livro infantil. Algo mais concreto.

- Julio! – gritou Roberto.

- Olá! Preparado para 2010?

- Começar com tudo. Já listei meus 10 objetivos do novo ano. Agora é esperar chegar e correr atrás.

- Ótimo. Ajude-me. Eu penso em algumas coisas, mas nada listei.

- O meu primeiro objetivo é o descarte. Alcançarei no primeiro dia. Já separei papéis, pastas, roupas e calçados que não uso. Até o dia 2 não estarão mais em minha casa.

- Que legal! Vou colocar isso em minha agenda também. Farei assim: minha casa, minha carreira, meu casamento… listar por tópicos.

- Muito bem. Pense em coisas que se possa alcançar. Mas nada de moleza. Alguns desafios será interessante.

- Verdade.

- No dia 15 nos encontraremos para discutirmos mais. Agora preciso ir.

Julio foi para casa, pegou sua agenda e listou 50 objetivos – entre grandes e pequenos – que pretendia alcançar em 2010. Alguns até improváveis, como participar de uma meia maratona.

A virada do ano aconteceu. Muita festa, muitos fogos, muita comida. O primeiro dia de 2010 passou sem que ele percebesse, já que seu cansaço era imenso. Mas no dia 2 ele cumpriu o primeiro objetivo: descartar inúmeras coisas que não mais usaria.

E o dia 15 chegou. Julio e Roberto saíram para celebrar o novo ano.

- Rapaz, de cara cumpri dois objetivos: o descarte e o noivado. – disse Roberto.

- Noivado? Com Maria?

- E com quem mais seria? Noivei dia 5. O casamento deve acontecer ano que vem.

- Que legal!

- E você? Ah! Você será o padrinho!

- Que prazer! Muito obrigado! – e deu um abraço no amigo.

- Sim, e você?

- Eu? Eu listei 50 objetivos e já cumpri um.

- Ótimo… Qual foi? O descarte?

- Isso mesmo…

- Fale-me sobre os demais.

- Não dá. Listei-os na minha agenda 2009. E, no descarte, joguei-a fora…

Pequena Thainá

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 09/12/2009

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O seu nome é Thainá. Ele sempre a chamava de Thaís. A primeira vez fora por esquecimento, mas as demais era para ouvir sua reação, sempre a mesma: ”É Thainá!”.

Ela tem apenas seis anos. Brinca e se diverte o tempo todo. Chora quando cai e sorri quando caem. É gordinha, corre engraçado e não sabe pular - nem mesmo da cadeira. Come e divide sua comida, mas nunca seu iogurte ou suco – ensinamento dos pais.

Certo dia, ela brincava com uma turma de dez crianças de pique-esconde na escola. Das primeiras vezes, foi encontrada fácil, fácil. Mas agora queria se esconder bem escondidinha.

Todos correram e acharam um canto. Ela ficou na espera, para que ninguém a visse. E realmente ninguém a viu.

E lá vinha a menininha, depois de contar até 30. Encontrou uma, duas, quatro, seis, oito crianças em poucos segundos. Mais uma e uma e uma e uma e uma… Só faltava Thainá. E nada de Thainá.

Sobe escada, desce escada, entra em sala, sai de sala, entra em banheiro, sai de banheiro… Não havia quem soubesse de seu paradeiro. A irmã e as primas estavam preocupadas. Chegou a perguntar ao porteiro se ela tinha ido embora.

- Não, não vi passar ninguém aqui. – disse lendo o jornal.

- O senhor nem está olhando o portão! - questionou um menino.

- Eu vejo com os ouvidos.

- Oxe! – arregalou os olhos.

O menino ficou confuso. “Como ele vê com os ouvidos???!!”

A questão era que ninguém encontrava Thainá. Então, vai a irmã chamar o rapaz da secretaria, aquele que só a chamava pelo nome errado.

- Quem é Thainá?

- A irmã dela.

- A irmã dela?

- Sim. Uma pequeninha, das bochecha grande, do sapato amarelo…

- Ah! Sim, sim… ela sumiu?

- É. A gente brincava…

E contou toda a história. Nos mínimos detalhes. E em três versões distintas.

E lá foi o rapaz da secretaria. Olha em sala, em banheiro, na cozinha, no parquinho, nos matos… nada. Ficou intrigado. Mas sabia que ela apareceria em instantes.

Foi saindo das salas e passando pelo corredor quando avistou, no alto da escada do lado de fora, uma mãe gritando pelos seus filhos. E justamente a mãe de Thainá.

A irmã e as primas correram para botar os sapatos e arrumar as mochilas, esquecendo-se da sumida Thainá.

- Ei! E sua irmã? – gritou o rapaz.

- Iiiih! É mesmo!

- Thaíiiis, sua mãe está indo embora! – ele havia esquecido o nome da pequena.

Segundos depois, ouve-se uma voz bem irritada saindo em meio ao quartinho da limpeza:

- É Thainá!

A força de Marivaldo

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 07/12/2009

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Marivaldo fazia força para levantar aquela pá com entulho. Suava. Suava muito. O suor escorria pela sua face, suas pernas tremiam e seus braços franzinos davam a sensação de partir a qualquer instante. Sentia-se oprimido. E mais humilhado diante de Norberto, o Betão, um negão de 90kg.

Enquanto o mirrado Marivaldo jogava três pás de entulho no contêiner, Betão completava dez – assobiando. Enquanto o lento Marivaldo carregava um saco de cimento daqui-para-ali, Betão empilhava cinco daqui-para-depois-de-lá.

Marivaldo dava sinais de desistência. Não queria bancar o forte e perder os braços. Melhor ser envergonhado do que passar meses de repouso em cima de uma cama. Estava decidido. Olhou para Betão e falou:

- Cara, não dá mais.

- O quê?

- Não dá mais.

- Força no diagrama (diafragma), enterra a pá e lança o entulho.

Ele não queria saber: era o momento de desistir.

Nesse momento, ao soltar a pá, eis que surge Nildicéia, o seu amor. Ele tinha de dar uma boa impressão.

Retoma a ferramenta, contrai o diafragma, enterra a pá e levanta com extremo sacrifício. Suas mãos tremem, seus braços tremem, suas pernas tremem. As veias do pescoço incham, a ponto de explodir. Ele trava os dentes, fixa o semblante. O suor toma conta de sua face. Levanta a pá e lança o entulho.

Nildicéia vislumbra sua força e exibe um tímido sorriso. Marivaldo ganhava o dia.

Marivaldo está sem forças. Sua garganta está seca. Apenas espera o sumir de Nildicéia para desabar no chão e se entregar ao cansaço.

O entulho sobe, atravessa o contêiner e encontra um ônibus que passava naquele momento. Uma janela entreaberta e uma mulher no local errado são o destino daqueles pedaços de pedra, piso e areia.

Teste de esforço

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 25/11/2009

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- Então está marcado, senhor. Quarta-feira, dia 13, às 15h50 com o Dr. Romingall…

- Qual é mesmo o endereço?

- Avenida Luis XV, número 1342, próximo do Hotel Boaventura.

- Certo.

- É para vir com roupa sport. Para o exame.

- Sei… Obrigado.

 

No dia marcado, eis que aparece o senhor Lima trajando um tênis preto, um meião vermelho, um calção branco e a camisa do Esporte Clube Bahia.

ASSENTO ORTOGRÁFICO

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 23/07/2009

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Diogo, vinte anos, é vidrado em computador. Na verdade, apaixonado por MSN e Orkut. Suas únicas ocupações durante a tarde. A manhã é da cama e a noite é da academia. Pensamento acerca do futuro não existe. Pelo menos ainda não.

Largou os estudos há três anos, faltando apenas a última série. Está em processo de finalização graças aos puxões de orelha da mãe, à ameaça de corte de mesada do pai e ao supletivo que descobriu lendo num folhetim colado no poste da padaria. Que, aliás, estava mal elaborado: com erros de português e informações imprecisas. Características inerentes a ele também.

- Marcelo, você ouviu falar do tal circo que vem se apresentar por aqui, em Salvador?

- Cirque Du Soleil?

- É um negócio desses. É paraense, né!?

- Canadense.

- Isso. Qual o nome do espetáculo mesmo? Lidam?

- Quidam.

- Como?

- Quidam.

- Isso. Rapaz, tinha uns sambistas que estavam vendendo por R$ 100 cada ingresso. Muito caro!

- Sambistas???

- É! Uns malandros que compram e revendem mais caro os ingressos, principalmente em partidas de futebol.

- Cambistas!

- Isso.

- E só R$ 100? É mais caro.

- Mesmo? E eu comprei um…

- Você deve ter sido enganado.

- É. Acho que fui mesmo… Sim! Outra coisa: que história é essa que em estreia não tem mais assento?

- Como?

- Eu passei hoje por um shopping e lá estava um cartaz dizendo que a estreia era dia 13 de agosto. Meu amigo me disse: “Vê!? Em estreia não tem mais acento”. Absurdo!

-Foi com a reforma ortográfica…

- E ainda não deu tempo de ajeitarem?

- Como?

- E após?

- “Após” tem acento.

- Mas… era melhor estrear no dia 14, então!

- Você deve estar por fora da reforma. Com ela…

- Ônibus tem assento, não é mesmo?

- Sim. Já o acento do “voo” sumiu. Com a refor…

- Bem que me falaram… Por isso prefiro viajar de ônibus.

Carta de despedida

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 17/03/2009

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Sentou-se. Recostado na cadeira, pôs a caneta e um papel em cima da pequena mesa. Não sabia como começar. Desejava encontrar as palavras certas, para não gerar mágoas ou ações desastrosas.

Pegou a caneta. Letras, palavras, frases surgiam. A carta de despedida foi tomando forma. Começou timidamente, mas conseguiu exprimir seu pensamento de bom modo. Tudo o que era preciso escrever, lá estava escrito. Detalhes, explicações e a atitude de partir – necessária e difícil.

Há cinco meses havia conhecido Amanda. Linda, perfeita, na medida para ele. Sempre pronta e disposta, confortava-o, dando noites maravilhosas, descanso. Para inveja dos amigos. Tempo de glória, de alegria, confidências… Boa parte do dia passava com ela. Mas chegava a separação.

Os amigos choraram. Fizeram uma pequena celebração. Houve até discurso. Bolo e doces. Cantaram para ela. Beijaram-na. Entretanto, ela não comemorou. Estava terminando sua despedida, descrevendo momentos e as futuras saudades.

Lembrou da noite que ficou acordado, conversando com ela. Do dia que precisou dela para se esconder dos outros rapazes. Do dia que o amarraram a ela – inesquecível. Da época que um fino e rasgado lençol a cobria, porque os amigos haviam ganhado uma aposta – longa história. Tempo que não volta.

Os funcionários do manicômio esperavam-no entregar a carta. Lágrimas surgiram de seu rosto. Não podia ficar até o final. Era duro demais deixá-la. Com passos desajeitados, ele dirigiu-se até o quarto ao lado. Assumiria uma nova cama, Rita. Não mais Amanda, que seria de outro. Mudanças de partir o coração.

 

Publicada em janeiro na revista eletrônica O Guaruçá.

João, o pequeno – Conto selecionado

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 14/02/2009

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“João, o pequeno” foi um dos tantos contos selecionados para a edição especial da Antologia da Câmara Brasileira de Jovens Escritores, em dezembro de 2008.

Quem quiser lê-lo, aqui está.

 

Dona Maria acordou cedo naquela primavera de novembro. Eram pouco mais de cinco da manhã. O sol ainda estava se levantando atrás da montanha, mas seus raios já iluminavam e clareavam a fazenda.

Os pássaros cantavam na árvore. Os bezerros ainda dormiam. A lenha estava sendo separada para servir de combustível para o fogão. O cachorro caído na frente da casa esperava o sol despertá-lo. Dos cinco meninos, apenas Dorival estava de pé. Os outros esperavam o canto do galo para o dia começar.

Quando a oração começou na cozinha, o sol já indicava seis horas. Todos davam as mãos agradecendo pela fartura na mesa. Bolos, cuscuz, leite fresco e café quentinho. Ainda tinha requeijão e biscoitos da última visita à cidade. Pela janela se via o curral e o carinho das vacas com os bezerros. A conversa entre Seu Zé e Dona Maria embalava o café da manhã. O rádio estava sem pilhas. A televisão, quebrada.

- Pai, hoje o senhor vai para a cidade, num é? – alegrou-se João.
- Sim. Por causa de que está nessa felicidade toda?
- Eu posso ir hoje?
- Mas é claro que não. Eu podia te levar, mas eu num quero. Você é muito pequeno. Dá trabalho. Eu vou com Val.
-Pequeno! – sussurrou Dorival para João – Pequeno!

João não gostou de ouvir aquelas palavras. Obedeceu a seu pai, mas estava cansado de ser pequeno. Não podia ir à cidade, não podia brincar além do rio nem subir o monte e se embrenhar nos matos. Era limitado à barra de saia da mãe. O lugar mais longe que fora sozinho foi na cancela, quando resolveu ajeitar a placa de madeira com o nome da fazenda. Na ocasião, machucou o dedo do pé: o martelo escapuliu.

Dona Maria deu um beijo de despedida em Seu Zé e em Dorival, pediu a proteção de Deus aos dois e foi cuidar dos afazeres domésticos. Lavou os pratos, arrumou as camas, varreu a entrada da casa. Só quando estava afugentando Rambo, o cachorro, reparou que quem dava milho às galinhas era Carlinhos.

- Por que você está alimentando as galinhas, Carlinhos? Onde está João?
- Sei não. Ele disse que ia fazer não-sei-o-quê e não ia demorar. E pediu que…
- Pode dar conta dele. – berrou – Você é mais velho e ele é pequeno.

Carlinhos não sabia por onde começar a procurar. Foi em direção ao rio, mas João tomou o caminho inverso: subiu para o monte. Estava querendo provar que não era pequeno.

Com um badogue na mão e algumas pedras dentro da bolsa, saiu em direção ao primeiro alvo: uma rolinha. Caminhou lentamente, arranhando-se nos espinhos. A primeira pedra acertou o nada e dispersou os pássaros. Subiu mais e atirou uma, duas, cinco vezes. A única coisa que derrubou foi um galho. Na última tentativa machucou o dedo. “Não vou gritar: não sou pequeno”, pensou.

Resolveu pular a cerca e invadir e pegar manga na fazenda de Dona Mirinha, uma viúva ranzinza e ciumenta. Catou algumas pedras e atirou. Quando duas mangas caíram, Pingo e Bilu, dois vira-latas, saíram em disparada. Não deu tempo de João pegar as mangas: apenas correu e sumiu entre os matos, escondendo-se no alto de um pé de amêndoa. Ficou pouco mais de vinte minutos.

Chegou em casa sujo, arranhado e sem uma prova sequer da sua grandeza. Dorival riu, Carlinhos se assustou e Dona Maria foi logo perguntando:

- Estava aonde? E como é que sai assim sem falar nada para sua mãe?
- Está bom de umas cintadas. – sentenciou Seu Zé.
- Você ainda é pequeno! – falou Dorival em meio à gargalhada.

João não agüentou a provocação. Essa palavra ecoava insuportavelmente em sua cabeça. Antes que percebessem, ele se apressou e puxou uma faca que estava próximo ao filtro de barro, na pia da cozinha.

Todos se assustaram. Principalmente Dorival. Uma lágrima escorria do rosto de João. Seu Zé ficou imóvel e calado. Carlinhos arregalou os olhos e rumou umas laranjas para tentar derrubar a faca: em vão. Dona Maria tirou o pano de prato do ombro e começou a rasgá-lo, de tão nervosa.

- Quiquinho é que é pequeno: só tem três anos. E Lico, que tem quatro. Eu carrego balde de leite, de água, dou de comer para as galinhas, tanjo as vacas… Mas parece que é pouco. Vou mostrar para vocês que eu já não sou pequeno. – falou com raiva.

Dona Maria se segurou para não desmaiar. Seu Zé também. Dorival fechou os olhos e orou. João saiu porta afora e foi em direção ao galinheiro. Olhou, correu, gritou, pegou, largou e segurou Gerusa firme pelas asas. “Você é a escolhida!”. Colocou-a em cima do pedaço de tronco. Mas não sabia como matá-la. Deu um vacilo e ela saiu voando e correndo para dentro da casa. Começou a chorar.

Dorival sentiu um alívio no coração. Carlinhos deu um copo de água com açúcar para sua mãe. Seu Zé, trêmulo, achegou-se até João.

- Meu filho, não chore. Ser pequeno é coisa boa. Não precisa trabalhar, não tem responsabilidade, pode brincar a maior parte do dia… Tudo tem seu tempo.
- Mas eu quero ser grande para ir para a cidade.
- João, não tem nada de mais nisso – intrometeu-se Dorival – Eu sou grande, mas às vezes quero ser pequeno e ficar pescando o dia todo. Só que tenho que estudar e ajudar o pai.

E todos falaram sobre a nobreza de ser pequeno e ajudar nos afazeres de casa, na alegria que a mãe sente ao vê-lo brincar e crescer e na tristeza de um dia perdê-lo para um casamento, no companheirismo e na inocência, nas piadas sem graça. As lágrimas de João se transformaram em sorriso. Em poucos minutos todos estavam se abraçando.

- Mãe, Gerusa sujou seu quarto – disse Lico.
- Meu quarto? João, trate logo de ir limpar!
- Claro, mãe! – prontamente obedeceu.

T.I.

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 19/12/2008

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- É verdade. Por que mentiria para você?
- Não sei. Para me impressionar, talvez.
- Não preciso disso. Basta eu dizer meu salário.

Ela não riu. Ele ficou envergonhado.

- Desculpe-me! Eu não quis ofender. Foi uma piada.
- Sei que foi uma piada. Mas não entendi.

Ele coçou a cabeça. E o queixo. E a testa. Assoviou e cantarolou. Tudo para não se questionar o porquê da insistência em conquistar aquela garota. Bonita e de belo corpo. Sim. Mas nada de interessante quando abria a boca. Uma balança em desequilíbrio. Contudo, ganhava a beleza.
A música ao fundo convidava casais ao salão. Ele ficou receoso. “Será que ela dança em par? Será que curte pagode? Que faço aqui?”.

- Quer dançar?
- Não. Eu sei cantar. – enfática.

Ele ficou em silêncio, raciocinando.

- Quem não sabe cantar, dança!
- Aaaah! – ele quis se matar.

A música corria sozinha. Ele desejava uma dança. Ao menos uma. Nada mais. Dois passos, aqui-ali-aqui, gira-um-dois-gira-três-quatro… amava dança de salão.
O refrigerante com gelo e limão que pedira já estava quente. A conversa estava desanimada. Uma mulher bonita, sem cérebro, é incompleta. Desejava sair, sem saber como.

- Sim… Você é programador.
- Isso.
- E qual programa você apresenta?
- Sou programador PHP.
- Qual canal???
- Entende de tecnologia de informação?
- Li algo sobre televisão digital no Brasil, mas não estou inteirada.
- Não é isso. Eu faço sites, sistemas, desenvolvo isso numa linguagem PHP.
- Ah! Quando era criança sabia isso.
- Mesmo? – interessou-se.
- Espera… Vopa cêpê épi umpo rapu pazpa inpe tepi respo sanpu tepa.
- Que é isso? – confuso.
- Bom, não lembro se era bem assim. A língua do P, menino!

Ele coçou o queixo, a testa, as bochechas. Apertou as mãos, inclinou a cabeça e fechou os olhos, como se rezasse. Contou, em silêncio, até 20. Respirou. Ouvia a música que tocava. Desejou expulsar o DJ dali.
Abriu os olhos. Observou a menina. Um sorriso bonito. Desejou esganá-la.

- Você usa internet, suponho. Acessa o Orkut, não é mesmo?
- Sim. Amo!
- Então, eu faço isso.
- Orkut?
- Site.
- Mas Orkut não é uma rede de relacionamentos?

A noite parecia conspirar contra ele. “Por que estava ali?”. Entrara naquele local para comer algo. Tudo acontece de uma forma inesperada, às vezes. E incompreensível.

- Sou web designer.
- Sou Carla Magnólia, prazer! Pensei que não me diria seu nome…

Ele levantou-se. Estendeu a mão e deu um romântico beijo em sua face. Agradeceu pela noite maravilhosa e interessante. Inventou uma desculpa, para que ela não se sentisse constrangida, e se encaminhou à porta. Saiu abismado. E não olhou para trás.

 

Mais crônicas podem ser lidas em O Guaruçá, a revista eletrônica de Ubatuba, São Paulo. toda semana estou por lá.

Nem tudo é o que parece ser

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 12/12/2008

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A fila chegava a uns 30 metros. E não seria exagero. Mulheres, crianças, velhos e homens esperavam em pé, ou sentado, pela famosa e deliciosa pizza da casa número 25. Todas as noites eram assim.

Miguel passava pela rua quando viu a multidão. Mudara seu itinerário por uma questão simples: ali poderia consertar sua bicicleta. Apavorou-se de imediato. Quando viu o anúncio em letras garrafais, porém, animou-se: “Pizza de graça – sexta”. Daqui a dois dias.

O pequeno ajudante de pedreiro terminou seu percurso, já com a bicicleta consertada, e agendou em sua cabeça. O sorriso tomou conta de sua face. Homem para gostar de comer era aquele. Sentia prazer, entrava em júbilo, dançava e cantava quando se empanturrava. Os olhos cresciam, a boca ficava inquieta, as mãos trêmulas. Geralmente não se comportava de modo adequado nessas horas.

O serviço na obra foi dos mais duros naqueles dias. E ele glorificou ao Senhor por isso. Mais trabalho, mais fome. Precisava recompor-se na sexta-feira. E faria com imensa alegria.

- Não vai levar a marmita? – espantou-se a esposa.
- Não, hoje não.
- O nome dela?

A esposa desconfiou que Miguel a estivesse traindo. Não levar almoço significava, para ela, que ele estava comendo em outro lugar. Com fome ele não ficava. Não suportava. Além disso, não trabalhava e era um mau humor irritante.

- Vou fazer apenas um lanche. Porque, de noite, eu e você, meu amor, vamos comemorar.
- Comemorar o quê?
- Nossos anos de casamento.
- Mas nem é o mês de casado.
- Não importa. Encontraremos outra justificativa, então. Esteja pronta às sete. Vou buzinar…
- Vai ganhar um carro?
- …com a bicicleta. – irritou-se.

O dia passou uma maravilha. Miguel trabalhou, empenhou-se, ajudou mais do que o normal. Surpresa para todos. Cada hora a menos era uma alegria para o excelente ajudante de pedreiro. Até que a noite chegou.

Correu até em casa. Buzinou. A esposa estava elegante: um lindo vestido preto e uma sandália prata; perfumada e com os cabelos penteados de modo nunca já visto. Ele deu um beijo e mordeu seus lábios. “Linda!”.

A casa 25 estava lotada. Como de costume. Ele sentou-se nas cadeiras espalhadas pela calçada. Parecia dia de festa. A mesa ao lado estava cheia de crianças. “Odeio meninos”, pensou. “Pegam tudo e não comem nada”.

Levantou-se e foi ao balcão fazer o pedido.

- Oi! Boa noite. Eu quero oito pizzas.
- Oito?
- Pouco? – assustado.
- Não, não… Sabores?
- Variados. Menos de milho e presunto. Da brotinho.
- Como!? – a mulher se ofendeu.
- A pizza pequena. “Brotinho” o nome, não é!?

A noite correu maravilhosa. Risos e gargalhadas. Os dois beijaram-se e conheceram novas pessoas. Umas novas no bairro, outras nem tanto. A conversa era interessante, até que um comentário fez esvair toda alegria de Miguel.

- A pizza de Graça é deliciosa, não!?
- Sim. Esse projeto que ela faz nos bairros, diminuindo o preço da pizza e mantendo a qualidade, é perfeito para nós. – riu.
- Como assim? É de Graça? Não é de graça?
- Anh? Não entendi a piada…
- Piada vocês contaram. Quer dizer que vou pagar pelo que comi?
- Não é óbvio?

Miguel começou a suar. Ficou impaciente. A esposa não havia entendido ainda. Ele cochichou em seu ouvido e pediu que ela fosse ao banheiro e, de lá, descesse para casa. Mesmo temendo uma loucura do marido, fez conforme ele falara.

Quase onze da noite, Miguel aparece. A roupa estava rasgada, o cabelo sujo de areia e folhas e a bicicleta quebrada. Ela o abraçou fortemente. Sabia que deveria ter ouvido seu instinto feminino.

- Que aconteceu?
- Nada. – calmo. Desci ladeira abaixo quando fugia do cachorro que a dona da casa soltou em cima de mim. Eu propus lavar os pratos, reformar a cozinha dela, limpar o quintal. Ela disse que eu deveria ir dar comida ao cão.
- E?
- Disse “sim”. E lá veio o bicho, feito touro. Só deu tempo de montar na bicicleta e pedalar. Acabei perdendo meu sapato.
- Meu querido!
- Eu fiquei mais frustrado porque deixei cair a última fatia da pizza… Que mole!

 

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Surras e fugas

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 05/12/2008

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Uma boa conversa não tem hora para começar. Muito menos para acabar. Inicia-se ninguém sabe como, termina-se não se entende o porquê. E quando amigos de longa data se encontram, a prosa finaliza incompleta. É sempre um: “Mais tarde a gente papeia”.

Cláudio, Marcos e Cícero conheceram-se no último ano do colegial. Tornaram-se amigos desde então. Casaram em épocas diferentes, mas com mulheres do mesmo círculo de amizade. Cláudio era o mais novo. Pai de três filhos e pedreiro. Marcos, pai de um menino, abriu um comércio atrás do outro. Encontrou sucesso vendendo casas. E Cícero, o mais velho e arruaceiro, recepcionista em um hospital. Não tinha filhos.

Os três estavam sentados no lugar de sempre: a calçada da casa de Marcos. Era sexta-feira. A conversa estendia-se. O cafezinho transformou-se em janta. A visita em hospedagem. Lembravam dos velhos tempos de moleque, quando o que mais faziam era traquinagem.

- Recordo-me da vez que seu pai aplicou-lhe uma dolorosa surra. Você quebrou a janela da casa do Seu Rivaldo… – ria Cláudio.

Filhos e amigos dos filhos observavam atentamente. De cócoras, em pé ou sentados pelo chão da entrada, deixaram o futebol para saber do passado dos pais.

- Sim, sim. Que surra! Meu pai, o senhor Raimundo, um velho bigodudo e muito sisudo, estava sentado em sua poltrona. Eu entrei de fininho. Era da idade de vocês: dez anos. Não sei como, mas ele sabia de toda a história antes mesmo de acontecer! – às gargalhadas. Ele perguntou e eu neguei. Que erro! Meninos, nunca mintam. Principalmente aos pais de vocês. Dói menos.

Os meninos riram. Mas sabiam que era verdade.

- Ele disse: “Vou sair e quando voltar quero uma resposta plausível”. Eu me perguntei: “O que é plausível?”. Antes de raciocinar uma nova desculpa, ele saiu, bateu a porta e abriu-a em seguida. Não deu outra. Caí no couro.

Os meninos ficaram assustados. Os pais não eram tão agressivos, mas as chineladas e os castigos eram certos toda semana. Principalmente por desobediência.

- E você, Claudio!? Conte para os meninos a semana de faxina em sua casa.

Claudio riu ao lembrar. Coçou a cabeça e falou envergonhado.

- Minha mãe havia acabado de limpar a casa. Eu tinha uns doze anos. Entrei com os sapatos melados de lama. Estava jogando bola e não reparei, porque estava preocupado com o joelho machucado. Meu pai saiu do banheiro e viu. Por uma semana ele me fez vestir o avental e ajudar a empregada a limpar o banheiro, varrer a casa e os pratos. Não pude sair nem para brincar na rua. E ainda tive de ler o jornal para ele todos os dias, milhares de vezes a mesma notícia.

E todos conversavam e gargalhavam muito. Reconheciam que todas as disciplinas dos pais surtiram bons efeitos, contribuíram para a formação do caráter de cada um. O frio começou a bater. O sono também. E sempre ninguém saía sabendo da história mais marcante da vida de Cícero. Quando um dos meninos perguntou a ele. Tentou desconversar, mas a curiosidade tomou a todos.

Cícero levantou da cadeira. Esticou as pernas. Sentou-se novamente. Bebeu um pouco de água.

- Isso foi há uns quinze anos. Estava eu e minha irmã brincando. Meu pai chegou para nós e disse: “Amanhã é aniversário da mãe de vocês. Um rapaz vai trazer uma encomenda. Peçam para ele colocar na mesa. À noite eu escondo”. Continuamos a brincadeira. Duas, três horas depois, aparece um homem com um presente enorme.
- O que era? – adianta-se um dos meninos.
- Recebi, ele pôs na mesa. Minha irmã ficou curiosa. Eu mais ainda. Tateamos e não descobrimos o que poderia ser. Subi na cadeira e comecei a desatar o laço. Terminei e, não sei como, o presente caiu.
- No chão?
- Na mesa. Mas quebrou um pedaço. Levantei, fechei mal fechado e fui para o meu quarto estudar. Na época eu não era cristão, mas comecei a orar a Deus para que o meu pai derrubasse o presente antes de abrir.
- Funcionou?
- Quando ele chegou, viu a encomenda. Notou o laço e o embrulho desajustado. “Quem foi?”. O velho conhecia sua cria. “Quem foi o quê?”, perguntei. Ele me mandou calar a boca e ter mais respeito. A gente acaba esquecendo que nossos pais são autoridade sobre nossa vida. Foi instituído por Deus.
- Mas, e a surra?
- Falou que iria tomar um banho. E precisava ter uma conversa comigo no quarto. Eu corri junto com minha irmã. Conversa no quarto era chinelada. Ele me procurou por dois dias. Eu escondido na casa de uma tia e minha irmã na de outra.
- E quando encontrou?
- Soube que não bateu em minha irmã. Ela ficou de castigo por um mês. Mesmo esquema de Claudio: lavar pratos, cozinha, banheiro, ficar sem televisão e sem ouvir rádio, sem sair de casa nem para comprar pão.
- E você?
- Comigo, nada.
- Como assim?
- Eu fugi de casa. Reencontrei com meu pai um ano depois.

 

Mais crônicas podem ser lidas em O Guaruçá, a revista eletrônica de Ubatuba, São Paulo. Toda semana estou por lá.

DIA DAS CRIANÇAS – Publicado!

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 05/11/2008

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Mais uma crônica publicada no site Comunique-se. Para a glória de Deus. Se ainda não leu, leia e comente.

O Dia das Crianças passara em branco para os dois filhos de Robervaldo. Em branco entenda sem presentes, porque o dia inteiro foi de festa em seu bairro – inclusive com palhaços animando. Mas, para felicidade dos pequeninos, o pai havia prometido brinquedos. E o que ele prometia, cumpria.

Sem emprego, vivia de bicos: consertava um cano aqui, capinava um terreno acolá, trabalhava como ajudante de pedreiro em outro momento. Mas a semana não fora nada boa para ele. Saía pelas ruas procurando uma forma de ganhar dinheiro. Entrava e saía de lojas: sem experiência, sem referência, sem confiança. Robervaldo ia pela fé, uma vez que é quase impossível alguém empregar outro nessas condições. E a segunda-feira terminou. E as crianças cobraram seus presentes.

- Papai, cadê minha boneca?
- Pai, meu carro?
- Calma, calma. – olhava para a esposa. Esta semana. É que são tantas opções, que tenho que escolher o melhor para vocês. – deu uma risada desanimada.

A sua caminhada pela cidade prosseguia. Subia rua, descia rua. Entrava em prédio, saía de prédio. Sua camisa, outrora limpa, estava tomada de suor. Seu cabelo, desarrumado. Sua aparência, agora entristecida. Firme era aquela tarde, porque suas forças não mais existiam.

Robervaldo olhava a velocidade da cidade. Tudo em movimento. O desespero tomou-lhe a mente. Temia frustrar os filhos. Lembrava de sua infância pobre, sem direito a dignidade e a brincadeiras: tão cedo perdeu os pais; tão cedo se tornou homem. Sentado no banco da praça, chorava copiosamente. Ninguém aparecia para ajudar-lhe. Menos ele.

- Você caiu?- questionou uma criança de seis anos.
- Hein?
- Está chorando. Quando eu caio, eu também choro. Mas meu pai diz para eu parar de chorar, porque chorando dói mais. Então eu paro e continuo brincando.

A mãe do garoto chamou-o aos berros. Ele saiu correndo. E deixou cair seu carrinho. Robervaldo ainda gritou, alertando-o, mas ele sumira na multidão. Aquelas simples palavras fizeram-lhe refletir. Envergonhou-se por pensar em desistir e seguiu determinado a conseguir um emprego.

Defronte a um enorme prédio, resolveu arriscar. Buscou por vaga em serviços gerais. Antes de falar com a pessoa encarregada, conversou com uma faxineira. Ela indicou a maneira como conversar com o chefe: com humildade e desejo de trabalhar. Concentrado, arranjaram-lhe cinco minutos com Seu Nivaldo Peixoto, um senhor forte e barbudo.

- Boa tarde.
- Tem cinco minutos. – nem sequer olhou para ele.
- Vim à procura de um emprego. Percebi que só tem mulheres na faxina. Creio que precisam de um homem para o serviço mais pesado: carregar caixas, afastar armários, essas coisas.
- Andou o dia inteiro?
- Sim. Estou suado, não?!
- Andou conversando com alguém aqui?
- Sim. – ar de derrotado.
- Gostei de você. Determinado e inteligente. Dar-te-ei um período de estágio probatório. Vá a esta empresa, cadastre-se e entregue este papel ao senhor Mario. Só a ele. Apareça aqui amanhã às oito. Agora vai embora.
- Obrigado, senhor.

A felicidade estava estampada em seu rosto. Saiu andando nas nuvens, agradecendo a Deus. Queria chegar em casa para anunciar as boas novas. Porém, faltava-lhe arranjar o presente da filha.

No caminho, viu uma pequena boneca perfeitamente escondida a entulhos. Retirou-a e percebeu que estava intacta: todos os braços e pernas, inclusive com roupa. Abriu um sorriso.

Horas atrás, passeava uma mãe com a filha. Nervosa, a mãe arremessou a boneca para o alto, como castigo à filha pela sua desobediência. Caíra dentro de um compartimento para entulhos.

Robervaldo parou em um supermercado e pediu duas sacolas, para guardar os presentes. Sem dinheiro, solicitou ao cobrador do ônibus uma carona. Conseguiu até boa parte do trajeto, desconfiados de sua aparência – apesar dos brinquedos à mão. E, de ônibus em ônibus, chegou em casa. Antes de entrar, agradeceu novamente a Deus. Lembrou-se que não havia comido nada durante a tarde. Morria de fome.

As crianças já dormiam, mas ele tratou de acordá-las. Com um sorriso estampado no rosto, falou baixinho a cada uma delas: “Feliz Dia das Crianças”. Os abraços carinhosos completaram o seu dia de glória.

O caminho

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas, Espiritual | 27/10/2008

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- Mas não digo para seguires pastor, a não ser o Bom Pastor: Jesus Cristo.

Ele nada respondeu.

- Temes o que já conheces: desilusões e enganos. Digo que nada disso conhecereis em Jesus. Porque não há que se possa achar nEle que O condene. Branco como a neve, puro, santo. Não há mentiras nem falsidade.

- Olhes para o céu. Podes medir a distância? Assim é o Seu amor. Perfeitos são seus ensinamentos. Maravilhosas são suas promessas. Agradável é descansar em Seu colo. Confie no Senhor!

Ele nada respondeu.

Ele respirou fundo.

RACIOCÍNIO LÓGICO – Publicado!

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 14/10/2008

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17/10 – Meu ilustre primo Vinicius Cruz, webdesigner-master-creater, disse-me que eu preciso mudar os títulos, para uma melhor busca no Google.

Talvez algum de vocês já tenha lido esta crônica no site Comunique-se ou no O Guaruçá. Para quem não leu, a oportunidade de lê-la.

Para alguns é precipitação. Para outros, rapidez de pensamento. A Palavra diz que é estupidez. Aquele que responde antes de ouvir pode ser envergonhado ou tornar-se um vencedor – neste caso, lembremos de gincanas televisivas. Mas se faz isso não apenas com palavras, com ações também. Depende muito das circunstâncias.

Dona Maria, faxineira e mãe de seis filhos, é daquelas mães que educam o filho à base da fivela. Não que espanque ou torture suas crianças, mas com ela não tem meia conversa. Dizem que é extremamente grosseira e louca, está fora dos padrões intelectuais de educação impostos na atualidade. Sua ordem só se escuta uma única vez. O melhor é obedecê-la. E os meninos sabem bem disso. Se está errada ou não, basta analisar o número de adolescentes “perdidos” em seu bairro.

Rodolfo, o mais velho, de 12 anos, conhece o poder da mão de sua mãe. Sua voz, quando brada, estremece-o por completo. Não ousa desafiá-la. Respeita-a e a ama. É o filho querido, mas isso não significa que tenha alguma regalia quando errado. O que é comum, principalmente na escola. Ou melhor, fora comum.

Bela manhã de quarta-feira. A escola, toda ornamentada, preparava-se para uma apresentação dos estudantes, em comemoração ao Dia do Professor. Rodolfo era o organizador de sua turma. Suou durante todo o mês de setembro, buscando uma qualidade tanto na peça de teatro quanto no figurino dos colegas. O esforço resultou em uma imensa salva de palmas e gritos de júbilo. E rendeu-lhe um comunicado para seus pais, convidando-os para visitar a escola. Era tudo o que ele queria: seria sua consagração.

Todo contente, subia a última das três ladeiras do caminho para casa. Na semana foi repreendido por brigar com um rapaz. E intimidado pela mãe para que não acontecesse novamente. No mês anterior, uma confusão envolvendo seu nome deu-lhe como recompensa um castigo de cinco dias, além das temidas chineladas. Hoje, redimido, esperava por longos abraços e uma sobremesa individual: chocolates. Mas, para sua infelicidade, sua mãe não estava de bom-humor.

Ainda pela manhã, seu segundo filho, Rogério, discutiu com a professora e tomou uma pequena suspensão de aulas. Dona Maria teve de ir até a escola ouvir a direção e levar o menino para casa, para aplicar-lhe uma pisa – uma surra. E o mais novo, Romildo, quebrara um pequeno adorno em casa – um vaso de flores de grande valor sentimental. Desse modo, sua paciência esgotara-se.

Rodolfo foi entrando sem cerimônia. Assoviando, dirigiu-se à cozinha. Encontrou sua mãe sentada na cadeira, passando um sermão para os demais filhos. Todo orgulhoso, ele cortou a conversa da mãe – um erro fatal – e emendou:

- A diretora quer ver a senhora amanhã. – e abriu um sorriso.
- Para quê?

Antes que ele pudesse responder, sua mãe levantou-se com um dos tamancos na mão e tratou de acertá-lo ali mesmo. O pequeno garoto não tentou defender-se: apenas correu, largando o convite no chão. Antes de sumir pela casa, não escapou da pontaria da mãe: no meio das costas.

No papel não havia nada dizendo o assunto. Passados alguns minutos, Rodolfo voltou, explicando, ao longe, do que se tratava. Desajeitada, Dona Maria criticou-o:

- E por que não me falou logo?

Ele apenas abaixou a cabeça. Não ousou responder-lhe.

TRISTE FIM – Publicado!

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 28/09/2008

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17/10 – Meu ilustre primo Vinicius Cruz, webdesigner-master-creater, disse-me que eu preciso mudar os títulos, para uma melhor busca no Google.

Como alguns sabem, semanalmente eu publico crônicas na revista eletrônica O Guaruçá. Sou colunista regular há alguns meses. Para a glória de Deus.

Mas, antes disso, alguns textos já eram publicados no site Comunique-se. E sexta-feira mais um foi lá postado. Para a glória de Deus. Alegre-se comigo. Ueba!!! (“Ueba” é uma expressão antigona, né!?)

Reformulando…

Mas, antes disso, alguns textos já eram publicados no site Comunique-se. E sexta-feira mais um foi lá postado. Para a glória de Deus. Alegre-se comigo. Iabadabaduuu!!! (melhorou?)

 

Não havia ninguém acima dela naquele dia. Estava levemente sensual. Totalmente charmosa. Feita para ser admirada. Não se sabia o que a motivou naquela produção. Todos reconheciam sua majestade.

Do início ao fim da rua, os homens ficavam boquiabertos. As mulheres, mordendo-se de ciúmes. Algumas até elogiavam, mas em pensamento. Carros andavam mais devagar, o sol perdera sua extrema temperatura, as nuvens rendiam-se à sua beleza. As árvores balançavam em harmonia com o vento, os pássaros cantavam mais alegres, as borboletas improvisavam um balé no ar. Tudo estava perfeito.

Ela andava sem pressa. Apesar de olhar para baixo, percebia o que acontecia ao redor. Não conseguia esconder seu sorriso. E que sorriso! Seus deslumbrantes olhos verdes combinavam com sua pele, com sua maquiagem, com a cor do cabelo… Detalhes encaixando-se romanticamente. Seu perfume, a maciez da pele, o formato do rosto. As mãos lisas, os pés pequenos, o corpo desenhado. E ela seguia devagar, graças ao salto, que não a permitia extrapolar na velocidade.

A rua alongava a cada passo seu. Como uma passarela sem fim. Até a lua surgira – não queria perder o espetáculo. E uma linda e reconfortante música, com sua melodia preenchendo o momento com um toque de delicadeza.

Mas tudo tem um fim. E o dela chegou ao final daquela rua. Infelizmente.

Seus olhos resolveram vistoriar o espaço. E seu rosto foi elevado até seu nariz. Dessa forma, o trono começou a ruir. Os passos não estavam mais suntuosos. Seus pés pisavam com rudez. O sorriso, agora sinistro, perdia seu brilho, juntamente com a nobreza de seu rosto.

Mais à frente, inadmissível, um pequeno e poderoso buraco. Mal de toda cidade. A imponência da bela dama se esvaiu. E sentiu na pele as marcas da soberba. A humildade ainda continua sendo a maior das belezas.