“João, o pequeno” foi um dos tantos contos selecionados para a edição especial da Antologia da Câmara Brasileira de Jovens Escritores, em dezembro de 2008.
Quem quiser lê-lo, aqui está.
Dona Maria acordou cedo naquela primavera de novembro. Eram pouco mais de cinco da manhã. O sol ainda estava se levantando atrás da montanha, mas seus raios já iluminavam e clareavam a fazenda.
Os pássaros cantavam na árvore. Os bezerros ainda dormiam. A lenha estava sendo separada para servir de combustível para o fogão. O cachorro caído na frente da casa esperava o sol despertá-lo. Dos cinco meninos, apenas Dorival estava de pé. Os outros esperavam o canto do galo para o dia começar.
Quando a oração começou na cozinha, o sol já indicava seis horas. Todos davam as mãos agradecendo pela fartura na mesa. Bolos, cuscuz, leite fresco e café quentinho. Ainda tinha requeijão e biscoitos da última visita à cidade. Pela janela se via o curral e o carinho das vacas com os bezerros. A conversa entre Seu Zé e Dona Maria embalava o café da manhã. O rádio estava sem pilhas. A televisão, quebrada.
- Pai, hoje o senhor vai para a cidade, num é? – alegrou-se João.
- Sim. Por causa de que está nessa felicidade toda?
- Eu posso ir hoje?
- Mas é claro que não. Eu podia te levar, mas eu num quero. Você é muito pequeno. Dá trabalho. Eu vou com Val.
-Pequeno! – sussurrou Dorival para João – Pequeno!
João não gostou de ouvir aquelas palavras. Obedeceu a seu pai, mas estava cansado de ser pequeno. Não podia ir à cidade, não podia brincar além do rio nem subir o monte e se embrenhar nos matos. Era limitado à barra de saia da mãe. O lugar mais longe que fora sozinho foi na cancela, quando resolveu ajeitar a placa de madeira com o nome da fazenda. Na ocasião, machucou o dedo do pé: o martelo escapuliu.
Dona Maria deu um beijo de despedida em Seu Zé e em Dorival, pediu a proteção de Deus aos dois e foi cuidar dos afazeres domésticos. Lavou os pratos, arrumou as camas, varreu a entrada da casa. Só quando estava afugentando Rambo, o cachorro, reparou que quem dava milho às galinhas era Carlinhos.
- Por que você está alimentando as galinhas, Carlinhos? Onde está João?
- Sei não. Ele disse que ia fazer não-sei-o-quê e não ia demorar. E pediu que…
- Pode dar conta dele. – berrou – Você é mais velho e ele é pequeno.
Carlinhos não sabia por onde começar a procurar. Foi em direção ao rio, mas João tomou o caminho inverso: subiu para o monte. Estava querendo provar que não era pequeno.
Com um badogue na mão e algumas pedras dentro da bolsa, saiu em direção ao primeiro alvo: uma rolinha. Caminhou lentamente, arranhando-se nos espinhos. A primeira pedra acertou o nada e dispersou os pássaros. Subiu mais e atirou uma, duas, cinco vezes. A única coisa que derrubou foi um galho. Na última tentativa machucou o dedo. “Não vou gritar: não sou pequeno”, pensou.
Resolveu pular a cerca e invadir e pegar manga na fazenda de Dona Mirinha, uma viúva ranzinza e ciumenta. Catou algumas pedras e atirou. Quando duas mangas caíram, Pingo e Bilu, dois vira-latas, saíram em disparada. Não deu tempo de João pegar as mangas: apenas correu e sumiu entre os matos, escondendo-se no alto de um pé de amêndoa. Ficou pouco mais de vinte minutos.
Chegou em casa sujo, arranhado e sem uma prova sequer da sua grandeza. Dorival riu, Carlinhos se assustou e Dona Maria foi logo perguntando:
- Estava aonde? E como é que sai assim sem falar nada para sua mãe?
- Está bom de umas cintadas. – sentenciou Seu Zé.
- Você ainda é pequeno! – falou Dorival em meio à gargalhada.
João não agüentou a provocação. Essa palavra ecoava insuportavelmente em sua cabeça. Antes que percebessem, ele se apressou e puxou uma faca que estava próximo ao filtro de barro, na pia da cozinha.
Todos se assustaram. Principalmente Dorival. Uma lágrima escorria do rosto de João. Seu Zé ficou imóvel e calado. Carlinhos arregalou os olhos e rumou umas laranjas para tentar derrubar a faca: em vão. Dona Maria tirou o pano de prato do ombro e começou a rasgá-lo, de tão nervosa.
- Quiquinho é que é pequeno: só tem três anos. E Lico, que tem quatro. Eu carrego balde de leite, de água, dou de comer para as galinhas, tanjo as vacas… Mas parece que é pouco. Vou mostrar para vocês que eu já não sou pequeno. – falou com raiva.
Dona Maria se segurou para não desmaiar. Seu Zé também. Dorival fechou os olhos e orou. João saiu porta afora e foi em direção ao galinheiro. Olhou, correu, gritou, pegou, largou e segurou Gerusa firme pelas asas. “Você é a escolhida!”. Colocou-a em cima do pedaço de tronco. Mas não sabia como matá-la. Deu um vacilo e ela saiu voando e correndo para dentro da casa. Começou a chorar.
Dorival sentiu um alívio no coração. Carlinhos deu um copo de água com açúcar para sua mãe. Seu Zé, trêmulo, achegou-se até João.
- Meu filho, não chore. Ser pequeno é coisa boa. Não precisa trabalhar, não tem responsabilidade, pode brincar a maior parte do dia… Tudo tem seu tempo.
- Mas eu quero ser grande para ir para a cidade.
- João, não tem nada de mais nisso – intrometeu-se Dorival – Eu sou grande, mas às vezes quero ser pequeno e ficar pescando o dia todo. Só que tenho que estudar e ajudar o pai.
E todos falaram sobre a nobreza de ser pequeno e ajudar nos afazeres de casa, na alegria que a mãe sente ao vê-lo brincar e crescer e na tristeza de um dia perdê-lo para um casamento, no companheirismo e na inocência, nas piadas sem graça. As lágrimas de João se transformaram em sorriso. Em poucos minutos todos estavam se abraçando.
- Mãe, Gerusa sujou seu quarto – disse Lico.
- Meu quarto? João, trate logo de ir limpar!
- Claro, mãe! – prontamente obedeceu.