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	<title>Mateus Modesto &#187; Crônicas</title>
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	<description>Jornalista, escritor, webwriter</description>
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		<title>Casar é bom</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Dec 2011 00:26:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mateus Modesto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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		<description><![CDATA[Casar é bom. Um bom casamento se faz da união de duas pessoas &#8211; um homem e uma mulher &#8211; que se amam. Casamento é baseado em amor. E amor verdadeiro. Amor que tudo suporta. Amor eterno. Casamento não é só sexo. Sexo faz parte dele. O corpo do marido pertence à esposa. E o da esposa, ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Casar é bom. Um bom casamento se faz da união de duas pessoas &#8211; um homem e uma mulher &#8211; que se amam. Casamento é baseado em amor. E amor verdadeiro. Amor que tudo suporta. Amor eterno.</p>
<p>Casamento não é só sexo. Sexo faz parte dele. O corpo do marido pertence à esposa. E o da esposa, ao marido. Sexo é dever e direito. Não deve existir &#8220;indisposição&#8221; todos os dias. A abstenção deve ser de comum acordo - e por período determinado. Casamento é muito mais que sexo.</p>
<p>Casamento deve ser entendido como a junção da sua metade &#8211; aquela pessoa que você tanto ama. É partilhar da vida com ela. Acordar todos os dias ao seu lado - amá-la vendo-a descabelada, amassada, inchada; Assistir a filmes e dormir tarde aos sábados; Tomar café na cama aos domingos às 10h &#8211; e almoçar às 14h; Reclamar da tampa suja do vaso sanitário ou das roupas espalhadas pelo quarto ou do prato sujo na mesa ou do copo debaixo da cama; Fazer piada com os amigos dos vacilos dela; Confessar um medo ridículo e pedir - com os olhos &#8211; para não contar a ninguém. Casar é bom.</p>
<p>Casamento deve ser vivido como algo indivisível. É um. Óbvio que acontece de haver separação. Mas apenas por morte. Nada de divórcio. Divórcio é a confirmação de um erro. Amor não acaba &#8211; Deus restaura. Casamento é o fim do &#8220;Até amanhã&#8221;, &#8220;Me ligue quando chegar&#8221;, &#8220;Passo aí&#8221;, &#8220;Vem para cá&#8221;. É a certeza de que ela não irá para casa &#8211; já está em casa.</p>
<p>Casamento é alegria. Alegria de rir das piadas sem graça ou do jeito amável dela. É rir de nada. E de tudo. Alegrar-se pelo descanso e conforto. Pela falta de pão na mesa. E pela fartura de alimentos. Pelo &#8220;sim&#8221; e pelo &#8220;não&#8221;.</p>
<p>Casar é de Deus. É algo feito e determinado por Ele. &#8220;Multiplicai-vos&#8221;. Só com sexo. Só no casamento. Casar é bom.</p>
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		<title>O crime</title>
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		<pubDate>Sat, 22 Oct 2011 16:00:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mateus Modesto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritual]]></category>
		<category><![CDATA[adultério]]></category>
		<category><![CDATA[Bíblia]]></category>
		<category><![CDATA[Jesus Cristo]]></category>

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		<description><![CDATA[A torneira pingava sem parar. O rolo de papel beijava o chão molhado. A toalha estava embolada, largada em cima do vaso sanitário. Sentado no chão do banheiro, perguntava-se por que havia feito aquilo. Da porta, entreaberta, podia-se ver o quarto. A cama, na verdade. E lá estava ela. Nua. O lençol parcialmente a cobrir o corpo. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A torneira pingava sem parar. O rolo de papel beijava o chão molhado. A toalha estava embolada, largada em cima do vaso sanitário. Sentado no chão do banheiro, perguntava-se por que havia feito aquilo.</p>
<p>Da porta, entreaberta, podia-se ver o quarto. A cama, na verdade. E lá estava ela. Nua. O lençol parcialmente a cobrir o corpo. O travesseiro e o cobertor no chão. Algumas velas, apagadas, decoravam o cômodo. Assim como alguns adesivos espalhados pelas paredes mal pintadas. A luz da lua iluminava o ambiente.</p>
<p>Estava nu. Seu olhar parecia perdido. Os ombros caídos, desamparados. As mãos sujas &#8211; mas de uma sujeira difícil de se limpar. As pernas estiradas, desconsoladas. A mente ocupada com todo tipo de pensamento - prevalecia o arrependimento.</p>
<p>A noite anterior começara muito bem. Após sair com amigos do trabalho, encontrara Madalena. Morena. Alta. Misteriosa. Bonita. Seu sorriso e seu charme a tornara a única pessoa interessante daquele local. Seu perfume&#8230; sentia-se de longe. Como se tocasse o coração. Ajeitara as mãos antes de se levantar.</p>
<p>A conversa ficara agradável. Os amigos se foram que ele nem percebera. Depois de alguns copos de bebida, inevitável terminar em outro local senão em um quarto de motel próximo ao bar.</p>
<p>Escolhera o primeiro quarto vago. Dera entrada às 23h. Agora, às 2h, buscava sair. Mas, aonde ir?</p>
<p>Respirou fundo. Resolveu tomar um banho. Quanto mais se esfregava, mais se sentia contaminado. Arranhava-se ao tentar tirar a imundícia. Inútil. A respiração denunciava sua angústia. Sentou-se no chão. O chuveiro permanecia ligado. &#8220;Como sairei disso?&#8221;. Seus olhos se moviam de um lado a outro. Não obteve resposta.</p>
<p>Desligou o chuveiro. A torneira ainda pingava. Saiu sem se enxugar. Vestiu-se. Olhou para ela. &#8220;Quem é você?&#8221;.</p>
<p>- Sua condenação.</p>
<p>Assustou-se.  Não havia mais ninguém naquele minúsculo quarto. Muito menos no banheiro, onde estivera por cerca de uma hora. Da janela não via ninguém. Pela fechadura da porta também. Seu coração acelerou. A garganta secou. Suas mãos passaram a suar.</p>
<p>Fechou a janela. Passou a cortina. Sentou-se no chão. Levantou-se. Abaixou-se. Com as mãos nas costas dela, aproximou o ouvido. Nenhum som saía de sua boca. Sentou-se novamente. De tão desesperado, cochilou.</p>
<p>Acordou. Eram 4h15. Levantou-se, passou uma água no rosto e parou diante da porta. Respirou fundo por três vezes. Abriu-a e saiu, tendo cuidado ao fechá-la.</p>
<p>Deu saída na recepção. Notaram que estava só &#8211; geralmente acontecia isso. Nada questionaram. Pegou um táxi.</p>
<p>Ao passar por uma delegacia, pediu para que o taxista parasse. Pagou, sem atentar para o valor cobrado. Saiu. Subiu as escadas, vagarosamente. Parou diante da porta. Entrou e falou com um policial.</p>
<p>- Posso ajudá-lo?</p>
<p>- Quero me entregar.</p>
<p>- Que crime cometeu, filho?</p>
<p>Ficou em silêncio, a olhar para o nada.</p>
<p>- Que crime cometeu, filho?</p>
<p>Olhou para o policial. Perdeu o controle da respiração. Sentou-se e começou a chorar. Tirou a aliança do bolso. Mostrou-a para o policial.</p>
<p>- Eu&#8230; eu traí minha esposa.</p>
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		<title>No fim do dia</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Aug 2011 00:54:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mateus Modesto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Era uma noite especial. Não digo apenas pelo luar, estrelas e o frio agradável. Não pelo novo corte de cabelo ou pelo perfume importado recém-comprado. Mas pela companhia: enfim ela havia aceitado seu convite. A reserva no mais belo restaurante da cidade fora feita com antecedência de um mês. (Mesmo sem ela ter dado o aceite). O [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Era uma noite especial. Não digo apenas pelo luar, estrelas e o frio agradável. Não pelo novo corte de cabelo ou pelo perfume importado recém-comprado. Mas pela companhia: enfim ela havia aceitado seu convite.</p>
<p>A reserva no mais belo restaurante da cidade fora feita com antecedência de um mês. (Mesmo sem ela ter dado o aceite). O pedido pelas chaves do carro ao pai, dois meses. A roupa que usaria no dia, comprada há cinco meses. O desejo de sair com ela, nem ele mesmo sabe precisar. Mas o dia havia chegado.</p>
<p>No horário marcado, com atraso pontual e estratégico de 15 minutos, lá estava ele. Saíram às 20h50 &#8211; trinta e cinco minutos dela. Com o discurso afiado, o que ele poderia ganhar era o sorriso azulado - pelo aparelho -, os tapinhas no ar e as mexidas constantes no cabelo. Ponto para ele.</p>
<p>O caminho até o restaurante não foi dos melhores. O calor causado pelos vidros fechados, fruto do medo de bagunçar os cabelos com o vento, e o efeito da batatinha do almoço provocaram certa desconfiança nela. Ponto negativo. A parte boa foi o trecho a pé: lindas e enormes árvores, uma pequena cascata à esquerda e o jardim bem cuidado da praça. E, claro, o momento em que ele arrancou e entregou uma rosa vermelha.</p>
<p>No restaurante foi perfeito. A entrada, o prato principal e a sobremesa não deixaram dúvidas da qualidade do local. A conversa também foi agradável. Nada de soberba ou beijos roubados. Atenção e humildade predominaram! O sentido mais aguçado foi a audição &#8211; depois do paladar, confesso. Risos comedidos, boa mastigação e falar pontual e no nível adequado. Nem parecia ser ele.</p>
<p>Mas, para infelicidade dele, e falo isso com autoridade, a conta lhe foi entregue. Como em um filme de suspense, em seu ápice, o valor foi revelado. Impossível não ter notado o olhar assombrado. E a respiração longa. Ela nada comentou. Nem insinuou querer dividir a conta. Ele retirou a carteira, o cartão, pagou, agradeceu o atendimento com um sorriso e se levantou.</p>
<p>O caminho até o carro foi silencioso &#8211; creio que fazia as contas em sua cabeça. O caminho até a casa dela foi constrangedor: rápidas e desinteressantes conversas. O caminho até sua casa foi reflexivo: &#8220;Será que me deixariam lavar os pratos? Ou pagar com vale?&#8221;. No fim do dia, havia um enorme vazio em seu bolso.</p>
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		<title>Verbos</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Mar 2010 00:11:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mateus Modesto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[A professora entra na sala e já vai sentenciando: - Hoje não estou para brincadeiras. Nada de gracinha. - O que aconteceu, pró? - Fui advertida pela Direção. Não estou cumprindo o programa. Não estou cumprindo o programa no tempo necessário. Estamos atrasados. E tudo por não mandá-los para lá quando preciso. Então, ela começou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A professora entra na sala e já vai sentenciando:</p>
<p>- Hoje não estou para brincadeiras. Nada de gracinha.</p>
<p>- O que aconteceu, pró?</p>
<p>- Fui advertida pela Direção. Não estou cumprindo o programa. Não estou cumprindo o programa no tempo necessário. Estamos atrasados. E tudo por não mandá-los para lá quando preciso.</p>
<p>Então, ela começou a falar sobre Verbo. Os verbos regulares, irregulares, abundantes, defectivos&#8230;</p>
<p>- Regular é quando o verbo é regular. Essa é mole. &#8211; disse Alan.</p>
<p>- Abundante? Tem vários alguma coisa. &#8211; enrolou Julia.</p>
<p>- Possui mais de uma forma para uma mesma flexão. &#8211; explicou a professora.</p>
<p>- Como assim?</p>
<p>- Aceitado e aceito. Acendido e aceso. Usamos o particípio regular, final ADO, depois de TER e HAVER e o outro, o particípio irregular, com SER e ESTAR. Exemplo: Eu havia limpado a cozinha. A cozinha foi limpa por mim.</p>
<p>- Legal.</p>
<p>- E o defectivo? Ivanilton?</p>
<p>- Defectivo&#8230; Defectivo&#8230; Vem com defeito?</p>
<p>- Podemos dizer que sim. Ele não apresenta conjugação completa. Exemplo: não existe a primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo FALIR. &#8220;Eu falo? Falho?&#8221;. Falir é defectivo. Demolir: &#8220;Eu demolo?&#8221; Não existe. O restante sim: Tu demoles; Ele demole&#8230;&#8221;</p>
<p>- Nós demomoles&#8230; &#8211; continuou Ivanilton.</p>
<p>- Eles deromoles&#8230; &#8211; completou Arnoldo.</p>
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		<title>Objetivos de ano novo</title>
		<link>http://mateusmodesto.com.br/blog/2010/objetivos-de-ano-novo/</link>
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		<pubDate>Tue, 05 Jan 2010 11:04:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mateus Modesto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Todo final de ano as pessoas pensam no que alcançar no ano que chega. Casamento, emprego novo, filhos, enfim, vida nova. Há uma expectativa e esperança preenchendo o coração de cada um. A certeza da vitória é enorme. Mas, para alguns, basta Janeiro entrar e os planos tornam-se inalcançáveis. Julio ainda não havia começado sua lista de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Todo final de ano as pessoas pensam no que alcançar no ano que chega. Casamento, emprego novo, filhos, enfim, vida nova. Há uma expectativa e esperança preenchendo o coração de cada um. A certeza da vitória é enorme. Mas, para alguns, basta Janeiro entrar e os planos tornam-se inalcançáveis.</p>
<p>Julio ainda não havia começado sua lista de objetivos que conquistaria em 2010. Inúmeras coisas lhe passavam pela mente, mas ele queria apenas aquelas que teria a certeza de alcançar. Nada de viagens internacionais, emagrecer 10 quilos em dois meses ou escrever um livro infantil. Algo mais concreto.</p>
<p>- Julio! – gritou Roberto.</p>
<p>- Olá! Preparado para 2010?</p>
<p>- Começar com tudo. Já listei meus 10 objetivos do novo ano. Agora é esperar chegar e correr atrás.</p>
<p>- Ótimo. Ajude-me. Eu penso em algumas coisas, mas nada listei.</p>
<p>- O meu primeiro objetivo é o descarte. Alcançarei no primeiro dia. Já separei papéis, pastas, roupas e calçados que não uso. Até o dia 2 não estarão mais em minha casa.</p>
<p>- Que legal! Vou colocar isso em minha agenda também. Farei assim: minha casa, minha carreira, meu casamento&#8230; listar por tópicos.</p>
<p>- Muito bem. Pense em coisas que se possa alcançar. Mas nada de moleza. Alguns desafios será interessante.</p>
<p>- Verdade.</p>
<p>- No dia 15 nos encontraremos para discutirmos mais. Agora preciso ir.</p>
<p>Julio foi para casa, pegou sua agenda e listou 50 objetivos – entre grandes e pequenos – que pretendia alcançar em 2010. Alguns até improváveis, como participar de uma meia maratona.</p>
<p>A virada do ano aconteceu. Muita festa, muitos fogos, muita comida. O primeiro dia de 2010 passou sem que ele percebesse, já que seu cansaço era imenso. Mas no dia 2 ele cumpriu o primeiro objetivo: descartar inúmeras coisas que não mais usaria.</p>
<p>E o dia 15 chegou. Julio e Roberto saíram para celebrar o novo ano.</p>
<p>- Rapaz, de cara cumpri dois objetivos: o descarte e o noivado. &#8211; disse Roberto.</p>
<p>- Noivado? Com Maria?</p>
<p>- E com quem mais seria? Noivei dia 5. O casamento deve acontecer ano que vem.</p>
<p>- Que legal!</p>
<p>- E você? Ah! Você será o padrinho!</p>
<p>- Que prazer! Muito obrigado! &#8211; e deu um abraço no amigo.</p>
<p>- Sim, e você?</p>
<p>- Eu? Eu listei 50 objetivos e já cumpri um.</p>
<p>- Ótimo&#8230; Qual foi? O descarte?</p>
<p>- Isso mesmo&#8230;</p>
<p>- Fale-me sobre os demais.</p>
<p>- Não dá. Listei-os na minha agenda 2009. E, no descarte, joguei-a fora&#8230;</p>
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		<title>Pequena Thainá</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Dec 2009 11:25:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mateus Modesto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[O seu nome é Thainá. Ele sempre a chamava de Thaís. A primeira vez fora por esquecimento, mas as demais era para ouvir sua reação, sempre a mesma: &#8221;É Thainá!&#8221;. Ela tem apenas seis anos. Brinca e se diverte o tempo todo. Chora quando cai e sorri quando caem. É gordinha, corre engraçado e não sabe pular - nem mesmo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O seu nome é Thainá. Ele sempre a chamava de Thaís. A primeira vez fora por esquecimento, mas as demais era para ouvir sua reação, sempre a mesma: &#8221;É Thainá!&#8221;.</p>
<p>Ela tem apenas seis anos. Brinca e se diverte o tempo todo. Chora quando cai e sorri quando caem. É gordinha, corre engraçado e não sabe pular - nem mesmo da cadeira. Come e divide sua comida, mas nunca seu iogurte ou suco &#8211; ensinamento dos pais.</p>
<p>Certo dia, ela brincava com uma turma de dez crianças de pique-esconde na escola. Das primeiras vezes, foi encontrada fácil, fácil. Mas agora queria se esconder bem escondidinha.</p>
<p>Todos correram e acharam um canto. Ela ficou na espera, para que ninguém a visse. E realmente ninguém a viu.</p>
<p>E lá vinha a menininha, depois de contar até 30. Encontrou uma, duas, quatro, seis, oito crianças em poucos segundos. Mais uma e uma e uma e uma e uma&#8230; Só faltava Thainá. E nada de Thainá.</p>
<p>Sobe escada, desce escada, entra em sala, sai de sala, entra em banheiro, sai de banheiro&#8230; Não havia quem soubesse de seu paradeiro. A irmã e as primas estavam preocupadas. Chegou a perguntar ao porteiro se ela tinha ido embora.</p>
<p>- Não, não vi passar ninguém aqui. &#8211; disse lendo o jornal.</p>
<p>- O senhor nem está olhando o portão! - questionou um menino.</p>
<p>- Eu vejo com os ouvidos.</p>
<p>- Oxe! &#8211; arregalou os olhos.</p>
<p>O menino ficou confuso. &#8220;Como ele vê com os ouvidos???!!&#8221;</p>
<p>A questão era que ninguém encontrava Thainá. Então, vai a irmã chamar o rapaz da secretaria, aquele que só a chamava pelo nome errado.</p>
<p>- Quem é Thainá?</p>
<p>- A irmã dela.</p>
<p>- A irmã dela?</p>
<p>- Sim. Uma pequeninha, das bochecha grande, do sapato amarelo&#8230;</p>
<p>- Ah! Sim, sim&#8230; ela sumiu?</p>
<p>- É. A gente brincava&#8230;</p>
<p>E contou toda a história. Nos mínimos detalhes. E em três versões distintas.</p>
<p>E lá foi o rapaz da secretaria. Olha em sala, em banheiro, na cozinha, no parquinho, nos matos&#8230; nada. Ficou intrigado. Mas sabia que ela apareceria em instantes.</p>
<p>Foi saindo das salas e passando pelo corredor quando avistou, no alto da escada do lado de fora, uma mãe gritando pelos seus filhos. E justamente a mãe de Thainá.</p>
<p>A irmã e as primas correram para botar os sapatos e arrumar as mochilas, esquecendo-se da sumida Thainá.</p>
<p>- Ei! E sua irmã? &#8211; gritou o rapaz.</p>
<p>- Iiiih! É mesmo!</p>
<p>- Thaíiiis, sua mãe está indo embora! &#8211; ele havia esquecido o nome da pequena.</p>
<p>Segundos depois, ouve-se uma voz bem irritada saindo em meio ao quartinho da limpeza:</p>
<p>- É Thainá!</p>
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		<title>A força de Marivaldo</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Dec 2009 12:08:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mateus Modesto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Marivaldo fazia força para levantar aquela pá com entulho. Suava. Suava muito. O suor escorria pela sua face, suas pernas tremiam e seus braços franzinos davam a sensação de partir a qualquer instante. Sentia-se oprimido. E mais humilhado diante de Norberto, o Betão, um negão de 90kg. Enquanto o mirrado Marivaldo jogava três pás de entulho no contêiner, Betão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Marivaldo fazia força para levantar aquela pá com entulho. Suava. Suava muito. O suor escorria pela sua face, suas pernas tremiam e seus braços franzinos davam a sensação de partir a qualquer instante. Sentia-se oprimido. E mais humilhado diante de Norberto, o Betão, um negão de 90kg.</p>
<p>Enquanto o mirrado Marivaldo jogava três pás de entulho no contêiner, Betão completava dez &#8211; assobiando. Enquanto o lento Marivaldo carregava um saco de cimento daqui-para-ali, Betão empilhava cinco daqui-para-depois-de-lá.</p>
<p>Marivaldo dava sinais de desistência. Não queria bancar o forte e perder os braços. Melhor ser envergonhado do que passar meses de repouso em cima de uma cama. Estava decidido. Olhou para Betão e falou:</p>
<p>- Cara, não dá mais.</p>
<p>- O quê?</p>
<p>- Não dá mais.</p>
<p>- Força no diagrama (diafragma), enterra a pá e lança o entulho.</p>
<p>Ele não queria saber: era o momento de desistir.</p>
<p>Nesse momento, ao soltar a pá, eis que surge Nildicéia, o seu amor. Ele tinha de dar uma boa impressão.</p>
<p>Retoma a ferramenta, contrai o diafragma, enterra a pá e levanta com extremo sacrifício. Suas mãos tremem, seus braços tremem, suas pernas tremem. As veias do pescoço incham, a ponto de explodir. Ele trava os dentes, fixa o semblante. O suor toma conta de sua face. Levanta a pá e lança o entulho.</p>
<p>Nildicéia vislumbra sua força e exibe um tímido sorriso. Marivaldo ganhava o dia.</p>
<p>Marivaldo está sem forças. Sua garganta está seca. Apenas espera o sumir de Nildicéia para desabar no chão e se entregar ao cansaço.</p>
<p>O entulho sobe, atravessa o contêiner e encontra um ônibus que passava naquele momento. Uma janela entreaberta e uma mulher no local errado são o destino daqueles pedaços de pedra, piso e areia.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Teste de esforço</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Nov 2009 01:25:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mateus Modesto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[- Então está marcado, senhor. Quarta-feira, dia 13, às 15h50 com o Dr. Romingall&#8230; - Qual é mesmo o endereço? - Avenida Luis XV, número 1342, próximo do Hotel Boaventura. - Certo. - É para vir com roupa sport. Para o exame. - Sei&#8230; Obrigado.   No dia marcado, eis que aparece o senhor Lima trajando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- Então está marcado, senhor. Quarta-feira, dia 13, às 15h50 com o Dr. Romingall&#8230;</p>
<p>- Qual é mesmo o endereço?</p>
<p>- Avenida Luis XV, número 1342, próximo do Hotel Boaventura.</p>
<p>- Certo.</p>
<p>- É para vir com roupa <em>sport</em>. Para o exame.</p>
<p>- Sei&#8230; Obrigado.</p>
<p> </p>
<p>No dia marcado, eis que aparece o senhor Lima trajando um tênis preto, um meião vermelho, um calção branco e a camisa do Esporte Clube Bahia.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>ASSENTO ORTOGRÁFICO</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Jul 2009 23:52:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mateus Modesto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Diogo, vinte anos, é vidrado em computador. Na verdade, apaixonado por MSN e Orkut. Suas únicas ocupações durante a tarde. A manhã é da cama e a noite é da academia. Pensamento acerca do futuro não existe. Pelo menos ainda não. Largou os estudos há três anos, faltando apenas a última série. Está em processo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Diogo, vinte anos, é vidrado em computador. Na verdade, apaixonado por MSN e Orkut. Suas únicas ocupações durante a tarde. A manhã é da cama e a noite é da academia. Pensamento acerca do futuro não existe. Pelo menos ainda não.</p>
<p>Largou os estudos há três anos, faltando apenas a última série. Está em processo de finalização graças aos puxões de orelha da mãe, à ameaça de corte de mesada do pai e ao supletivo que descobriu lendo num folhetim colado no poste da padaria. Que, aliás, estava mal elaborado: com erros de português e informações imprecisas. Características inerentes a ele também.</p>
<p>- Marcelo, você ouviu falar do tal circo que vem se apresentar por aqui, em Salvador?</p>
<p>- Cirque Du Soleil?</p>
<p>- É um negócio desses. É paraense, né!?</p>
<p>- Canadense.</p>
<p>- Isso. Qual o nome do espetáculo mesmo? Lidam?</p>
<p>- Quidam.</p>
<p>- Como?</p>
<p>- Quidam.</p>
<p>- Isso. Rapaz, tinha uns sambistas que estavam vendendo por R$ 100 cada ingresso. Muito caro!</p>
<p>- Sambistas???</p>
<p>- É! Uns malandros que compram e revendem mais caro os ingressos, principalmente em partidas de futebol.</p>
<p>- Cambistas!</p>
<p>- Isso.</p>
<p>- E só R$ 100? É mais caro.</p>
<p>- Mesmo? E eu comprei um&#8230;</p>
<p>- Você deve ter sido enganado.</p>
<p>- É. Acho que fui mesmo&#8230; Sim! Outra coisa: que história é essa que em estreia não tem mais assento?</p>
<p>- Como?</p>
<p>- Eu passei hoje por um shopping e lá estava um cartaz dizendo que a estreia era dia 13 de agosto. Meu amigo me disse: “Vê!? Em estreia não tem mais acento”. Absurdo!</p>
<p>-Foi com a reforma ortográfica&#8230;</p>
<p>- E ainda não deu tempo de ajeitarem?</p>
<p>- Como?</p>
<p>- E após?</p>
<p>- &#8220;Após&#8221; tem acento.</p>
<p>- Mas&#8230; era melhor estrear no dia 14, então!</p>
<p>- Você deve estar por fora da reforma. Com ela&#8230;</p>
<p>- Ônibus tem assento, não é mesmo?</p>
<p>- Sim. Já o acento do &#8220;voo&#8221; sumiu. Com a refor&#8230;</p>
<p>- Bem que me falaram&#8230; Por isso prefiro viajar de ônibus.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Carta de despedida</title>
		<link>http://mateusmodesto.com.br/blog/2009/carta-de-despedida/</link>
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		<pubDate>Wed, 18 Mar 2009 00:41:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mateus Modesto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[Sentou-se. Recostado na cadeira, pôs a caneta e um papel em cima da pequena mesa. Não sabia como começar. Desejava encontrar as palavras certas, para não gerar mágoas ou ações desastrosas. Pegou a caneta. Letras, palavras, frases surgiam. A carta de despedida foi tomando forma. Começou timidamente, mas conseguiu exprimir seu pensamento de bom modo. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sentou-se. Recostado na cadeira, pôs a caneta e um papel em cima da pequena mesa. Não sabia como começar. Desejava encontrar as palavras certas, para não gerar mágoas ou ações desastrosas.</p>
<p>Pegou a caneta. Letras, palavras, frases surgiam. A carta de despedida foi tomando forma. Começou timidamente, mas conseguiu exprimir seu pensamento de bom modo. Tudo o que era preciso escrever, lá estava escrito. Detalhes, explicações e a atitude de partir – necessária e difícil.</p>
<p>Há cinco meses havia conhecido Amanda. Linda, perfeita, na medida para ele. Sempre pronta e disposta, confortava-o, dando noites maravilhosas, descanso. Para inveja dos amigos. Tempo de glória, de alegria, confidências&#8230; Boa parte do dia passava com ela. Mas chegava a separação.</p>
<p>Os amigos choraram. Fizeram uma pequena celebração. Houve até discurso. Bolo e doces. Cantaram para ela. Beijaram-na. Entretanto, ela não comemorou. Estava terminando sua despedida, descrevendo momentos e as futuras saudades.</p>
<p>Lembrou da noite que ficou acordado, conversando com ela. Do dia que precisou dela para se esconder dos outros rapazes. Do dia que o amarraram a ela – inesquecível. Da época que um fino e rasgado lençol a cobria, porque os amigos haviam ganhado uma aposta – longa história. Tempo que não volta.</p>
<p>Os funcionários do manicômio esperavam-no entregar a carta. Lágrimas surgiram de seu rosto. Não podia ficar até o final. Era duro demais deixá-la. Com passos desajeitados, ele dirigiu-se até o quarto ao lado. Assumiria uma nova cama, Rita. Não mais Amanda, que seria de outro. Mudanças de partir o coração.</p>
<p> </p>
<p><span style="color: #008000;">Publicada em janeiro na revista eletrônica <a href="http://www.ubaweb.com/revista/index.php" target="_blank">O Guaruçá</a>.</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>João, o pequeno &#8211; Conto selecionado</title>
		<link>http://mateusmodesto.com.br/blog/2009/joao-o-pequeno-conto-selecionado/</link>
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		<pubDate>Sat, 14 Feb 2009 21:33:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mateus Modesto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;João, o pequeno&#8221; foi um dos tantos contos selecionados para a edição especial da Antologia da Câmara Brasileira de Jovens Escritores, em dezembro de 2008. Quem quiser lê-lo, aqui está.   Dona Maria acordou cedo naquela primavera de novembro. Eram pouco mais de cinco da manhã. O sol ainda estava se levantando atrás da montanha, mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;João, o pequeno&#8221; foi um dos tantos contos selecionados para a edição especial da Antologia da Câmara Brasileira de Jovens Escritores, em dezembro de 2008.</p>
<p>Quem quiser lê-lo, aqui está.</p>
<p> </p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">Dona Maria acordou cedo naquela primavera de novembro. Eram pouco mais de cinco da manhã. O sol ainda estava se levantando atrás da montanha, mas seus raios já iluminavam e clareavam a fazenda.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">Os pássaros cantavam na árvore. Os bezerros ainda dormiam. A lenha estava sendo separada para servir de combustível para o fogão. O cachorro caído na frente da casa esperava o sol despertá-lo. Dos cinco meninos, apenas Dorival estava de pé. Os outros esperavam o canto do galo para o dia começar.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">Quando a oração começou na cozinha, o sol já indicava seis horas. Todos davam as mãos agradecendo pela fartura na mesa. Bolos, cuscuz, leite fresco e café quentinho. Ainda tinha requeijão e biscoitos da última visita à cidade. Pela janela se via o curral e o carinho das vacas com os bezerros. A conversa entre Seu Zé e Dona Maria embalava o café da manhã. O rádio estava sem pilhas. A televisão, quebrada.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">- Pai, hoje o senhor vai para a cidade, num é? &#8211; alegrou-se João.<br />
- Sim. Por causa de que está nessa felicidade toda?<br />
- Eu posso ir hoje?<br />
- Mas é claro que não. Eu podia te levar, mas eu num quero. Você é muito pequeno. Dá trabalho. Eu vou com Val.<br />
-Pequeno! &#8211; sussurrou Dorival para João &#8211; Pequeno!</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">João não gostou de ouvir aquelas palavras. Obedeceu a seu pai, mas estava cansado de ser pequeno. Não podia ir à cidade, não podia brincar além do rio nem subir o monte e se embrenhar nos matos. Era limitado à barra de saia da mãe. O lugar mais longe que fora sozinho foi na cancela, quando resolveu ajeitar a placa de madeira com o nome da fazenda. Na ocasião, machucou o dedo do pé: o martelo escapuliu.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">Dona Maria deu um beijo de despedida em Seu Zé e em Dorival, pediu a proteção de Deus aos dois e foi cuidar dos afazeres domésticos. Lavou os pratos, arrumou as camas, varreu a entrada da casa. Só quando estava afugentando Rambo, o cachorro, reparou que quem dava milho às galinhas era Carlinhos.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">- Por que você está alimentando as galinhas, Carlinhos? Onde está João?<br />
- Sei não. Ele disse que ia fazer não-sei-o-quê e não ia demorar. E pediu que&#8230;<br />
- Pode dar conta dele. &#8211; berrou &#8211; Você é mais velho e ele é pequeno.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">Carlinhos não sabia por onde começar a procurar. Foi em direção ao rio, mas João tomou o caminho inverso: subiu para o monte. Estava querendo provar que não era pequeno.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">Com um badogue na mão e algumas pedras dentro da bolsa, saiu em direção ao primeiro alvo: uma rolinha. Caminhou lentamente, arranhando-se nos espinhos. A primeira pedra acertou o nada e dispersou os pássaros. Subiu mais e atirou uma, duas, cinco vezes. A única coisa que derrubou foi um galho. Na última tentativa machucou o dedo. &#8220;Não vou gritar: não sou pequeno&#8221;, pensou.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">Resolveu pular a cerca e invadir e pegar manga na fazenda de Dona Mirinha, uma viúva ranzinza e ciumenta. Catou algumas pedras e atirou. Quando duas mangas caíram, Pingo e Bilu, dois vira-latas, saíram em disparada. Não deu tempo de João pegar as mangas: apenas correu e sumiu entre os matos, escondendo-se no alto de um pé de amêndoa. Ficou pouco mais de vinte minutos.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">Chegou em casa sujo, arranhado e sem uma prova sequer da sua grandeza. Dorival riu, Carlinhos se assustou e Dona Maria foi logo perguntando:</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">- Estava aonde? E como é que sai assim sem falar nada para sua mãe?<br />
- Está bom de umas cintadas. &#8211; sentenciou Seu Zé.<br />
- Você ainda é pequeno! &#8211; falou Dorival em meio à gargalhada.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">João não agüentou a provocação. Essa palavra ecoava insuportavelmente em sua cabeça. Antes que percebessem, ele se apressou e puxou uma faca que estava próximo ao filtro de barro, na pia da cozinha.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">Todos se assustaram. Principalmente Dorival. Uma lágrima escorria do rosto de João. Seu Zé ficou imóvel e calado. Carlinhos arregalou os olhos e rumou umas laranjas para tentar derrubar a faca: em vão. Dona Maria tirou o pano de prato do ombro e começou a rasgá-lo, de tão nervosa.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">- Quiquinho é que é pequeno: só tem três anos. E Lico, que tem quatro. Eu carrego balde de leite, de água, dou de comer para as galinhas, tanjo as vacas&#8230; Mas parece que é pouco. Vou mostrar para vocês que eu já não sou pequeno. &#8211; falou com raiva.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">Dona Maria se segurou para não desmaiar. Seu Zé também. Dorival fechou os olhos e orou. João saiu porta afora e foi em direção ao galinheiro. Olhou, correu, gritou, pegou, largou e segurou Gerusa firme pelas asas. &#8220;Você é a escolhida!&#8221;. Colocou-a em cima do pedaço de tronco. Mas não sabia como matá-la. Deu um vacilo e ela saiu voando e correndo para dentro da casa. Começou a chorar.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">Dorival sentiu um alívio no coração. Carlinhos deu um copo de água com açúcar para sua mãe. Seu Zé, trêmulo, achegou-se até João.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">- Meu filho, não chore. Ser pequeno é coisa boa. Não precisa trabalhar, não tem responsabilidade, pode brincar a maior parte do dia&#8230; Tudo tem seu tempo.<br />
- Mas eu quero ser grande para ir para a cidade.<br />
- João, não tem nada de mais nisso &#8211; intrometeu-se Dorival &#8211; Eu sou grande, mas às vezes quero ser pequeno e ficar pescando o dia todo. Só que tenho que estudar e ajudar o pai.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 6pt 10pt; line-height: normal; mso-margin-top-alt: auto; mso-margin-bottom-alt: auto;"><span style="font-size: 10pt; color: black; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">E todos falaram sobre a nobreza de ser pequeno e ajudar nos afazeres de casa, na alegria que a mãe sente ao vê-lo brincar e crescer e na tristeza de um dia perdê-lo para um casamento, no companheirismo e na inocência, nas piadas sem graça. As lágrimas de João se transformaram em sorriso. Em poucos minutos todos estavam se abraçando.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 10pt;"><span style="font-size: 10pt; color: black; line-height: 115%; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"><span style="font-family: Calibri;">- Mãe, Gerusa sujou seu quarto &#8211; disse Lico.<br />
- Meu quarto? João, trate logo de ir limpar!<br />
- Claro, mãe! &#8211; prontamente obedeceu.</span></span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>T.I.</title>
		<link>http://mateusmodesto.com.br/blog/2008/ti/</link>
		<comments>http://mateusmodesto.com.br/blog/2008/ti/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 19 Dec 2008 19:04:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Mateus Modesto</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>

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		<description><![CDATA[- É verdade. Por que mentiria para você? - Não sei. Para me impressionar, talvez. - Não preciso disso. Basta eu dizer meu salário. Ela não riu. Ele ficou envergonhado. - Desculpe-me! Eu não quis ofender. Foi uma piada. - Sei que foi uma piada. Mas não entendi. Ele coçou a cabeça. E o queixo. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- É verdade. Por que mentiria para você?<br />
- Não sei. Para me impressionar, talvez.<br />
- Não preciso disso. Basta eu dizer meu salário.</p>
<p>Ela não riu. Ele ficou envergonhado.</p>
<p>- Desculpe-me! Eu não quis ofender. Foi uma piada.<br />
- Sei que foi uma piada. Mas não entendi.</p>
<p>Ele coçou a cabeça. E o queixo. E a testa. Assoviou e cantarolou. Tudo para não se questionar o porquê da insistência em conquistar aquela garota. Bonita e de belo corpo. Sim. Mas nada de interessante quando abria a boca. Uma balança em desequilíbrio. Contudo, ganhava a beleza.<br />
A música ao fundo convidava casais ao salão. Ele ficou receoso. “Será que ela dança em par? Será que curte pagode? Que faço aqui?”.</p>
<p>- Quer dançar?<br />
- Não. Eu sei cantar. – enfática.</p>
<p>Ele ficou em silêncio, raciocinando.</p>
<p>- Quem não sabe cantar, dança!<br />
- Aaaah! – ele quis se matar.</p>
<p>A música corria sozinha. Ele desejava uma dança. Ao menos uma. Nada mais. Dois passos, aqui-ali-aqui, gira-um-dois-gira-três-quatro&#8230; amava dança de salão.<br />
O refrigerante com gelo e limão que pedira já estava quente. A conversa estava desanimada. Uma mulher bonita, sem cérebro, é incompleta. Desejava sair, sem saber como.</p>
<p>- Sim&#8230; Você é programador.<br />
- Isso.<br />
- E qual programa você apresenta?<br />
- Sou programador PHP.<br />
- Qual canal???<br />
- Entende de tecnologia de informação?<br />
- Li algo sobre televisão digital no Brasil, mas não estou inteirada.<br />
- Não é isso. Eu faço sites, sistemas, desenvolvo isso numa linguagem PHP.<br />
- Ah! Quando era criança sabia isso.<br />
- Mesmo? – interessou-se.<br />
- Espera&#8230; Vopa cêpê épi umpo rapu pazpa inpe tepi respo sanpu tepa.<br />
- Que é isso? – confuso.<br />
- Bom, não lembro se era bem assim. A língua do P, menino!</p>
<p>Ele coçou o queixo, a testa, as bochechas. Apertou as mãos, inclinou a cabeça e fechou os olhos, como se rezasse. Contou, em silêncio, até 20. Respirou. Ouvia a música que tocava. Desejou expulsar o DJ dali.<br />
Abriu os olhos. Observou a menina. Um sorriso bonito. Desejou esganá-la.</p>
<p>- Você usa internet, suponho. Acessa o Orkut, não é mesmo?<br />
- Sim. Amo!<br />
- Então, eu faço isso.<br />
- Orkut?<br />
- Site.<br />
- Mas Orkut não é uma rede de relacionamentos?</p>
<p>A noite parecia conspirar contra ele. “Por que estava ali?”. Entrara naquele local para comer algo. Tudo acontece de uma forma inesperada, às vezes. E incompreensível.</p>
<p>- Sou web designer.<br />
- Sou Carla Magnólia, prazer! Pensei que não me diria seu nome&#8230;</p>
<p>Ele levantou-se. Estendeu a mão e deu um romântico beijo em sua face. Agradeceu pela noite maravilhosa e interessante. Inventou uma desculpa, para que ela não se sentisse constrangida, e se encaminhou à porta. Saiu abismado. E não olhou para trás.</p>
<p> </p>
<p><strong>Mais crônicas podem ser lidas em <a href="http://www.ubaweb.com/revista/g_listar_mat.php?colunista=Mateus%20Modesto" target="_blank">O Guaruçá</a>, a revista eletrônica de Ubatuba, São Paulo. toda semana estou por lá.</strong></p>
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