O caminho

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas, Espiritual | 27/10/2008

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- Mas não digo para seguires pastor, a não ser o Bom Pastor: Jesus Cristo.

Ele nada respondeu.

- Temes o que já conheces: desilusões e enganos. Digo que nada disso conhecereis em Jesus. Porque não há que se possa achar nEle que O condene. Branco como a neve, puro, santo. Não há mentiras nem falsidade.

- Olhes para o céu. Podes medir a distância? Assim é o Seu amor. Perfeitos são seus ensinamentos. Maravilhosas são suas promessas. Agradável é descansar em Seu colo. Confie no Senhor!

Ele nada respondeu.

Ele respirou fundo.

RACIOCÍNIO LÓGICO – Publicado!

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 14/10/2008

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17/10 – Meu ilustre primo Vinicius Cruz, webdesigner-master-creater, disse-me que eu preciso mudar os títulos, para uma melhor busca no Google.

Talvez algum de vocês já tenha lido esta crônica no site Comunique-se ou no O Guaruçá. Para quem não leu, a oportunidade de lê-la.

Para alguns é precipitação. Para outros, rapidez de pensamento. A Palavra diz que é estupidez. Aquele que responde antes de ouvir pode ser envergonhado ou tornar-se um vencedor – neste caso, lembremos de gincanas televisivas. Mas se faz isso não apenas com palavras, com ações também. Depende muito das circunstâncias.

Dona Maria, faxineira e mãe de seis filhos, é daquelas mães que educam o filho à base da fivela. Não que espanque ou torture suas crianças, mas com ela não tem meia conversa. Dizem que é extremamente grosseira e louca, está fora dos padrões intelectuais de educação impostos na atualidade. Sua ordem só se escuta uma única vez. O melhor é obedecê-la. E os meninos sabem bem disso. Se está errada ou não, basta analisar o número de adolescentes “perdidos” em seu bairro.

Rodolfo, o mais velho, de 12 anos, conhece o poder da mão de sua mãe. Sua voz, quando brada, estremece-o por completo. Não ousa desafiá-la. Respeita-a e a ama. É o filho querido, mas isso não significa que tenha alguma regalia quando errado. O que é comum, principalmente na escola. Ou melhor, fora comum.

Bela manhã de quarta-feira. A escola, toda ornamentada, preparava-se para uma apresentação dos estudantes, em comemoração ao Dia do Professor. Rodolfo era o organizador de sua turma. Suou durante todo o mês de setembro, buscando uma qualidade tanto na peça de teatro quanto no figurino dos colegas. O esforço resultou em uma imensa salva de palmas e gritos de júbilo. E rendeu-lhe um comunicado para seus pais, convidando-os para visitar a escola. Era tudo o que ele queria: seria sua consagração.

Todo contente, subia a última das três ladeiras do caminho para casa. Na semana foi repreendido por brigar com um rapaz. E intimidado pela mãe para que não acontecesse novamente. No mês anterior, uma confusão envolvendo seu nome deu-lhe como recompensa um castigo de cinco dias, além das temidas chineladas. Hoje, redimido, esperava por longos abraços e uma sobremesa individual: chocolates. Mas, para sua infelicidade, sua mãe não estava de bom-humor.

Ainda pela manhã, seu segundo filho, Rogério, discutiu com a professora e tomou uma pequena suspensão de aulas. Dona Maria teve de ir até a escola ouvir a direção e levar o menino para casa, para aplicar-lhe uma pisa – uma surra. E o mais novo, Romildo, quebrara um pequeno adorno em casa – um vaso de flores de grande valor sentimental. Desse modo, sua paciência esgotara-se.

Rodolfo foi entrando sem cerimônia. Assoviando, dirigiu-se à cozinha. Encontrou sua mãe sentada na cadeira, passando um sermão para os demais filhos. Todo orgulhoso, ele cortou a conversa da mãe – um erro fatal – e emendou:

- A diretora quer ver a senhora amanhã. – e abriu um sorriso.
- Para quê?

Antes que ele pudesse responder, sua mãe levantou-se com um dos tamancos na mão e tratou de acertá-lo ali mesmo. O pequeno garoto não tentou defender-se: apenas correu, largando o convite no chão. Antes de sumir pela casa, não escapou da pontaria da mãe: no meio das costas.

No papel não havia nada dizendo o assunto. Passados alguns minutos, Rodolfo voltou, explicando, ao longe, do que se tratava. Desajeitada, Dona Maria criticou-o:

- E por que não me falou logo?

Ele apenas abaixou a cabeça. Não ousou responder-lhe.

TRISTE FIM – Publicado!

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 28/09/2008

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17/10 – Meu ilustre primo Vinicius Cruz, webdesigner-master-creater, disse-me que eu preciso mudar os títulos, para uma melhor busca no Google.

Como alguns sabem, semanalmente eu publico crônicas na revista eletrônica O Guaruçá. Sou colunista regular há alguns meses. Para a glória de Deus.

Mas, antes disso, alguns textos já eram publicados no site Comunique-se. E sexta-feira mais um foi lá postado. Para a glória de Deus. Alegre-se comigo. Ueba!!! (“Ueba” é uma expressão antigona, né!?)

Reformulando…

Mas, antes disso, alguns textos já eram publicados no site Comunique-se. E sexta-feira mais um foi lá postado. Para a glória de Deus. Alegre-se comigo. Iabadabaduuu!!! (melhorou?)

 

Não havia ninguém acima dela naquele dia. Estava levemente sensual. Totalmente charmosa. Feita para ser admirada. Não se sabia o que a motivou naquela produção. Todos reconheciam sua majestade.

Do início ao fim da rua, os homens ficavam boquiabertos. As mulheres, mordendo-se de ciúmes. Algumas até elogiavam, mas em pensamento. Carros andavam mais devagar, o sol perdera sua extrema temperatura, as nuvens rendiam-se à sua beleza. As árvores balançavam em harmonia com o vento, os pássaros cantavam mais alegres, as borboletas improvisavam um balé no ar. Tudo estava perfeito.

Ela andava sem pressa. Apesar de olhar para baixo, percebia o que acontecia ao redor. Não conseguia esconder seu sorriso. E que sorriso! Seus deslumbrantes olhos verdes combinavam com sua pele, com sua maquiagem, com a cor do cabelo… Detalhes encaixando-se romanticamente. Seu perfume, a maciez da pele, o formato do rosto. As mãos lisas, os pés pequenos, o corpo desenhado. E ela seguia devagar, graças ao salto, que não a permitia extrapolar na velocidade.

A rua alongava a cada passo seu. Como uma passarela sem fim. Até a lua surgira – não queria perder o espetáculo. E uma linda e reconfortante música, com sua melodia preenchendo o momento com um toque de delicadeza.

Mas tudo tem um fim. E o dela chegou ao final daquela rua. Infelizmente.

Seus olhos resolveram vistoriar o espaço. E seu rosto foi elevado até seu nariz. Dessa forma, o trono começou a ruir. Os passos não estavam mais suntuosos. Seus pés pisavam com rudez. O sorriso, agora sinistro, perdia seu brilho, juntamente com a nobreza de seu rosto.

Mais à frente, inadmissível, um pequeno e poderoso buraco. Mal de toda cidade. A imponência da bela dama se esvaiu. E sentiu na pele as marcas da soberba. A humildade ainda continua sendo a maior das belezas.

Tempo de eleição

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 11/09/2008

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Época de eleição é o único período que candidatos visitam o casebre do Seu Raimundo. Não há momento melhor que esse. Pai de cinco filhos, todos eleitores, é cobiçado. Aliás, cobiçadíssimo. Total de dez votos em seu “lar doce lar”, contando com sua esposa e outros três parentes.

 

Seu Raimundo sente-se alegre ao ver tantas comitivas congratulando-o pela sua saúde: mesmo com apenas 50 anos. São tão simpáticos e amáveis, carinhosos e atenciosos. Tudo o que ele sempre quis de governantes. De tão emocionado, percebe-se olhos marejados. Sua esposa é animação pura, tentando acomodar seis pessoas em sua pequeníssima sala. Poderia oferecer-lhes algo, se realmente tivesse condições para isso – martiriza-se por não ter comprado além do orçamento na feira do domingo passado.

 

Eleição é o tempo para se pedir. E os candidatos o fazem extremamente bem. Carismáticos e cínicos, prometem melhorias estonteantes e inigualáveis. “Uma nova vida te darei” é o que se pode ler nas entrelinhas. Verdade ou não, Seu Raimundo e família sorriem o sorriso da esperança, tão aguardado há mais de três eleições.

 

- Mirinalva, amanhã vamo na cidade comprá mais panela e um armário novo, pruque o dotô prometeu mais comida. Ele tá dizeno que vamo meiorá de vida!

 

Os candidatos exibem um belo sorriso. Sorriso de campanha, perfeito. Os óculos escuros não permitem que se percebam as lágrimas. Se houvessem. Com jeitinho, o candidato distribui santinhos e pede que se cole um enorme cartaz em sua porta. Tudo para garantir o selo da confirmação.

 

- Dotô, eu sei que o sinhô é um homi bom. Mas, venha vê isso aqui. – mostra-lhe o banheiro inacabado.

- Que quer que eu faça?

- Queria uns brocos. – sussurra.

 

Um erro. É um erro vender o voto. É um direito que se escorre pelo ralo do banheiro. Pedidos tão simples e consumíveis que nos faz saber o porquê do país não mudar a realidade dos pobres. Seu Raimundo sente vergonha, mas a necessidade fala mais alto.

 

O candidato coça a cabeça, diz que não pode. Seu Raimundo faz uma cara de pobre coitado – o que não foi difícil. Famílias tão abandonadas, esquecidas pelo tempo e pelo governo. A fome e a miséria não esperam o dia da eleição. Ali surge um (pseudo) amor fraternal. Seu pedido é atendido. Afinal, elas precisam. Afinal, são dez votos.

 

A comitiva vai embora. O pensamento de mudança ressurge. A certeza de conquista enche os corações de toda a família. É um novo tempo. Novos candidatos, novas perspectivas, novas propostas, novos pedidos.

 

Dia após dia, candidato após candidato, Seu Raimundo e família fazem novos solicitações. Blocos, telhas, cestas básicas, colchões. A lista vai aumentando. Nem todos correspondem à sua expectativa, mas boa parte lhe é atendida. A felicidade está estampada naquele casebre. Eleição é o período de conquista. Grandes conquistas.

 

E, assim, Seu Raimundo vai construindo sua vida. Sua casa está praticamente terminada pela “boa obra de suas mãos”. Sua família o felicita. Nunca tantas graças foram alcançadas em uma única eleição. Homem humilde, astuto e visionário. Seu Raimundo é exemplo de conduta.

 

O dia esperado chegou. Pegam a condução e dirigem-se para outra cidade, onde votam. Longe de toda aquela agonia, de todos aqueles candidatos, preparam-se para escolher, às cegas, o candidato que será melhor para o restante de sua família. Se é que existe algum.

Love sweet love

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 29/08/2008

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Eu quero um amor para a vida toda. Quem já não pensou nisso antes?! Mas eu preciso. Um amor que preencha todo o meu coração. Que encha-o de felicidade e de satisfação. É utopia?

As pessoas mal amadas dizem que amor não existe. Algumas chegam a afirmar que o amor é egoísta. Pobre delas! Não amar é o mesmo que não saber viver. Demais? Nem tanto. Quem ama vive melhor. Alguém também já deve ter dito isso.

Ah! Senhor! Eu quero um amor em que possa confiar. Rir ao lembrar de sua face e de suas palavras. Tremer ao vê-la, regojizar-me sozinho passeando na praia, chorar ao saber o quanto me faz feliz. Boca seca, mãos suadas, olhar reluzente, respiração desorganizada. Isso nos faz tão especial.

Ah! Meu sorriso é tão lindo quando a vejo! Mais lindos são meus olhos ao contemplá-la. Em minha mente passam tantas histórias e desejos que tornar-se-ão realidade em breve. Assim espero. Há gargalhada mais verdadeira que ao lado de alguém que se ama? Talvez exista.

Quero sentir seu perfume. Quero sentir seu amor. Quero sonhar. Quero glorificar o meu Deus pela pessoa que caminha ao meu lado. Ela é tão linda! Não eu que digo, mas meu coração. Ele está tão puro! Ele responde estranhamente: com gritos e saltos. Viver ao lado de quem se ama é uma dádiva de alguns. Infelizmente.

Love sweet love. Quero encher minha boca e dizer: “Meu amor!”. Até parece que todo o corpo fala. E, num agito, manifestam um sentimento que é perceptível por quem está ao longe. Deixe saber: estou apaixonado. Mas, confusamente, não há alguém. Como se estivesse preparado para o exato momento. E, nesse dia, celebrar-se-á com júbilo e grande festa, para que ela saiba que és querida e mui amada. E verei seu sorriso, a verdade estampada em sua face, declarando a si mesmo que sem ele não pode viver. E o que mais se dirá? Uma respiração longa e um suspiro pode descrever o que em palavras será impossível.

Ônibus lotado

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 27/08/2008

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Quem nunca pegou ônibus lotado, que atire a primeira pedra. Melhor: quem já pegou ônibus lotado, que atire pedra. No busão! Quem, realmente, desconhece o que é isso, não sabe a sorte que tem. E põe sorte nisso.

 

Em um ônibus cabem mais de quarenta pessoas sentadas. Mas o estranho é que consegue comportar muito mais em pé – muito mais mesmo! Talvez seja delírio causado pelo calor humano, ou a sensação de desconforto constante, ou a frustração de nunca pegá-lo vazio. Não importa qual é a explicação: a viagem se torna estressante de qualquer maneira.

 

Viagem intermunicipal. Ônibus comercial. Ou convencional. Isso quer dizer que pára em todos os pontos do percurso – basta levantar a mão. Mulheres, sacolas, crianças, sacolas, mulheres, bagagens e senhores. Em um transporte desse tipo, pode-se levar tudo quanto o veículo comportar e suportar. Mas quem não suporta são os próprios passageiros. Seja o fedor, o empurra-empurra, o aperto, a mão boba…

 

Há quem diga que suportar um ônibus lotado, em pé e com “encochadas”, consegue superar muitas adversidades. Quem entra numa condução, sabendo que vai ficar em pé por muito tempo, encara a vida de uma maneira que poucos imaginam. Pode ser exagero, mas esta condição pouca gente nem ousa em pensar que pode, obrigatoriamente, enfrentar. Por exemplo, para algumas dessas pessoas, em um carro não cabem apenas seis passageiros: nove, e com folga; três horas na fila do banco é pouco; dividir uma coxa de frango com outras duas é tranqüilo.

 

Formaram-se três fileiras. O meio do corredor estava ocupado com passageiros. Dos mais magros aos mais gordos. Com enormes bolsas e sacolas. Seria uma verdadeira corrida com obstáculos para atravessar aquilo.

 

- Licença… Licença… Licença… – Marcos foi passando.

- Tem espaço… Opa!

- Desculpe!

 

Um pé levantado e não mais consegue encontrar o chão. Pisa no pé de um, na coxa do outro. Segura-se na barra em cima, respira fundo e prende, atravessa aos trancos e barrancos, escorando-se nas pessoas. A blusa, outrora branca, agora estava amarelada. Suor desce pela testa, mas ele conseguiu. Cansou.

 

Num determinado ponto, uma simpática senhora, de idade avançada – denunciada pelos belos cabelos brancos –, decide entrar. Sobe num pulo, engarrafando ainda mais. Uma menina se levanta para ela sentar. A dificuldade ao girar o corpo e acomodar-se, segurando na barra que separa o motorista da agonia, gasta um tempo precioso. Atrás de Marcos, uma dez pessoas querendo descer. E sem paciência.

 

Ele se vê lançado para frente, empurrado por uma força exorbitante – ainda mais porque ele não estava apoiado. Passos confusos e atabalhoados levam-no para fora do coletivo. O medo toma-lhe o coração – poderia estar morto, pisoteado. A respiração acelera. Sua descida seria em oito pontos. Mas, ao ver a quantidade de pessoas que entraria, levanta as mãos e agradece a Deus. Nunca uma caminhada foi tão bem-vinda.

Migrantes

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 17/08/2008

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Os três vinham subindo a rua. A mãe, com malas e sacolas, a menina com um lindo vestidinho verde com detalhes em rosa – presente do último aniversário – e o menino, com uma blusa de frio – própria para o inverno russo. Pareciam felizes.

O sol estava quente. Muito quente. O chão de terra parecia refletir e aumentava ainda mais o calor. As sacolas aumentavam sua agonia e seu enorme cabelo pinicava-lhe o pescoço. O suor escorria pela face e pelos braços. Ela desejava chuva. Ou um rio. Mas um descanso seria perfeito.

Lindas e perfumadas flores enfeitavam a beira do caminho. O calçamento lembrava as ruas francesas, com grandes pedras do tempo colonial. Pétalas caíam do alto, como gotas de chuva. Havia arcos por sobre os três, protegendo-os do sol, soberano. A pequena Maria pulava e dançava, embalada pelo canto dos pássaros. E pela sua imaginação.

O menino João brincava com as pedras. Chutava-as pela rua, como se direcionando o posicionamento de cada uma para o seu bem-estar. Os pés, ainda pequenos, davam passos firmes para um local desconhecido. Não se importava, já que não sabia o que estava acontecendo.

O sol continuava o mesmo. As árvores, os montes e as plantações de milho no caminho eram novidade para as duas crianças. Brincavam a cada passo. Olhar admirado e confuso alternando-se a cada frustração momentânea.

- Está perto?

- Sim.

- Nosso avô já nos viu?

- Não.

- Nem por fotos?

- Não.

O sapato de João estava empoeirado. O vestidinho verde de Maria também. Seus pés estavam machucados de tanto andar. O menino queria colo, mas sua mãe não tinha condições. Caminhavam há um bom tempo. A Caravan preta deixara-os acerca de seis quilômetros da nova casa. Um aperto sufocante. A caminhada era bem-vinda assim que desceram. Mas, dez minutos depois, tornara-se um martírio andar naquele calor.

De longe os avistou. Respirou aliviada: estava próximo. O sorriso tomou-lhe a face e já não mais sentia cansaço. Andou apressada, desejando um abraço dos pais. As crianças andavam mais comedidas, uma vez que desconhecia os avôs – não os viram nem ao menos por foto. A felicidade se misturava com medo de rejeição.

A casa era pequena, com um rio que corria próximo. Lindas árvores, um pequeno chiqueiro, algumas plantações. Sensação de segurança e acolhimento. Ela se lembrou da infância. E do amor incondicional de seus pais. E das lutas para sua sobrevivência. Percebeu aquele lugar como seu melhor lar, de onde não deveria ter saído. As lágrimas começaram a surgir.

O avô levantou o pequeno João e o abraçou com orgulho. A avó ficou aguardando a decisão da neta: abraçada à mãe, escondendo o rosto, temendo não se acostumar com o novo ambiente. Mas a incerteza não durou um minuto. Os tios surgiram do quintal para dar boas-vindas. E os cachorros latiam e uivavam de forma estranha e interessante. Todos se abraçaram e celebraram o retorno dela.

 O sol foi embora, desolado – não notaram mais sua presença. A família, em festa, sorria e clamava por um futuro mais digno. Ela, com as crianças, davam início à nova vida. Uma mistura de realidade e fantasia.

À espera de um milagre

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 10/08/2008

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Ele tremeu quando recebeu aquela ligação. Sinceramente, desejava que seu celular estivesse desligado ou fora de área. Não podia inventar outra desculpa: já era a quinta remarcação. O dia de ir ao dentista chegou.

Parou em frente ao prédio do consultório do Doutor – não lembrava o nome do profissional. Respirou fundo. Desejou que houvesse uma tempestade naquele momento. Ou fosse atropelado. Ou qualquer outra coisa. Caminhou até a recepção. Até o elevador. Seu coração batia desesperadamente. Quando entrou no elevador, parecia que estava indo para a cadeira elétrica. Começou a suar. A respiração estava ofegante.

No corredor da sala 502, desejou que houvesse um terremoto. Ou um tornado. Entrou e olhou todos. Não deu “bom dia”, não acenou nem sorriu. A secretária estava com um sorriso sinistro e uns óculos assustadores. Ele informou o nome. Errado.

- Não consta nenhum Eduardo Abreu, senhor.

- Mesmo?!

A assistente do dentista surgiu na hora. E o reconheceu.

- Até que enfim, Maurício. – olhou para a secretária e completou – Ele está marcado para as nove e dez.

Ele abriu um sorriso constrangido. Ela mostrou seu lado mais sombrio: franziu a testa, diminuiu os olhos, levantou um pouco os lábios e resmungou baixinho. Ele temeu que estivesse rogando uma praga. Ficou mais desesperado ainda. Começou a suar frio.

Sentou-se. Era o quarto paciente. Pegou uma revista para se distrair. “Se o médico demorar muito, passar uns quinze minutos do meu horário, eu vou embora”, pensou animado. Eram quinze para as nove. De aflito, tornou-se calmo. E alegre. Era impossível um dentista tratar de três bocas em quarenta minutos. Folheou as páginas contemplando seu plano.

Admirava-se com as fotos de artistas e desconhecidos quando a secretária indicou a sala à paciente. Para sua infelicidade, as três pessoas estavam juntas. Seu plano foi frustrado. Abriu a boca, atônito. Sua respiração foi falhando, juntamente com seu coração. Desejava água, uma ambulância, uma luz. Mas o que teve foi o sorrisinho irônico da secretária – ela parecia perceber sua angústia. Ele teve raiva. E quase chorou.

Pontualmente às nove e dez as pacientes saíram da sala. O coração dele acelerou. O sangue esquentou. Poderia ter um infarto naquele momento. Não conseguia respirar, falar, enxergar. Sua visão ficou turva, ficou tonto, branco, roxo. Tanto desespero por conta de traumas de infância: o antigo dentista era seu maior inimigo.

A secretária o chamou. Tudo ficou em silêncio. Ele apenas ouvia seu coração, que aprecia gritar. Passos lentos, caminhando para seu fim. Um filme, assustador, passou em sua cabeça: lembranças inesquecíveis de consultórios. O lugar ficou escuro, opressivo. A assistente esperava na porta: havia uma trama maquiavélica naquele momento. O dentista estava de costas. “Deve estar com uma faca”. Ele se virou e abriu um sorriso falso. “Hipócrita!”, pensou. Ele se deitou. “Vão me anestesiar e roubar meu rim”.

A assistente colocou o babador, deu um guardanapo. Abriu um sorriso e o encorajou. A cadeira foi descendo, subindo, mudando de posição. O dentista jogou aquela luz em seus olhos – imaginou o teto da emergência de um hospital, quando pessoas aparecem ensangüentadas, quase sem vida. Sua boca foi visada e revisada. Todos os dentes vistoriados. Ele apertou os braços da cadeira. Cada vez mais. Suas mãos suavam. O dentista pegou o motorzinho. Era o que mais temia. O som do aparelho dava-lhe desespero. O sorriso da assistente dizia: “Chegou a sua hora! Há-há-há! Quero sangue!”. Ele viu o Doutor fazer uma careta monstruosa, apesar de completamente encoberto pela máscara em sua boca, os óculos e da toca. O motorzinho estava operando.

O dia estava lindo lá fora. O sol brilhava, esquentando o mar. Crianças pedalavam no calçadão e os casais namoravam na areia. Pais desfilavam seus lindos filhos, recém-nascidos. O vendedor de cocos faturava. Adolescentes malhavam nas barras. Aves voavam pelo céu. Navios, iates e pequenas lanchas enchiam o alto-mar. E ele morrendo dentro daquela sala. “O que MacGyver faria?”.

O barulho do motorzinho se confundia com seus gritos. Temia tocar em suas gengivas e bochechas. Devia ter sangue jorrando. Ele estava suando. Seu coração parou. Não conseguia respirar. Desmaiou. Na verdade, apenas desejou. O médico acabou o tormento. Foram os piores dez segundos de sua vida.

Enfim, terminou bem. Ele saiu vivo, com todos os dentes. Observava, agora, tudo ao seu redor. O consultório era agradável, a assistente era muito bonita, assim como a secretária. E, para sua surpresa, o dentista era, na verdade, uma mulher. Coisas que só se percebe quando se está em paz.