Love sweet love

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 29/08/2008

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Eu quero um amor para a vida toda. Quem já não pensou nisso antes?! Mas eu preciso. Um amor que preencha todo o meu coração. Que encha-o de felicidade e de satisfação. É utopia?

As pessoas mal amadas dizem que amor não existe. Algumas chegam a afirmar que o amor é egoísta. Pobre delas! Não amar é o mesmo que não saber viver. Demais? Nem tanto. Quem ama vive melhor. Alguém também já deve ter dito isso.

Ah! Senhor! Eu quero um amor em que possa confiar. Rir ao lembrar de sua face e de suas palavras. Tremer ao vê-la, regojizar-me sozinho passeando na praia, chorar ao saber o quanto me faz feliz. Boca seca, mãos suadas, olhar reluzente, respiração desorganizada. Isso nos faz tão especial.

Ah! Meu sorriso é tão lindo quando a vejo! Mais lindos são meus olhos ao contemplá-la. Em minha mente passam tantas histórias e desejos que tornar-se-ão realidade em breve. Assim espero. Há gargalhada mais verdadeira que ao lado de alguém que se ama? Talvez exista.

Quero sentir seu perfume. Quero sentir seu amor. Quero sonhar. Quero glorificar o meu Deus pela pessoa que caminha ao meu lado. Ela é tão linda! Não eu que digo, mas meu coração. Ele está tão puro! Ele responde estranhamente: com gritos e saltos. Viver ao lado de quem se ama é uma dádiva de alguns. Infelizmente.

Love sweet love. Quero encher minha boca e dizer: “Meu amor!”. Até parece que todo o corpo fala. E, num agito, manifestam um sentimento que é perceptível por quem está ao longe. Deixe saber: estou apaixonado. Mas, confusamente, não há alguém. Como se estivesse preparado para o exato momento. E, nesse dia, celebrar-se-á com júbilo e grande festa, para que ela saiba que és querida e mui amada. E verei seu sorriso, a verdade estampada em sua face, declarando a si mesmo que sem ele não pode viver. E o que mais se dirá? Uma respiração longa e um suspiro pode descrever o que em palavras será impossível.

Ônibus lotado

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 27/08/2008

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Quem nunca pegou ônibus lotado, que atire a primeira pedra. Melhor: quem já pegou ônibus lotado, que atire pedra. No busão! Quem, realmente, desconhece o que é isso, não sabe a sorte que tem. E põe sorte nisso.

 

Em um ônibus cabem mais de quarenta pessoas sentadas. Mas o estranho é que consegue comportar muito mais em pé – muito mais mesmo! Talvez seja delírio causado pelo calor humano, ou a sensação de desconforto constante, ou a frustração de nunca pegá-lo vazio. Não importa qual é a explicação: a viagem se torna estressante de qualquer maneira.

 

Viagem intermunicipal. Ônibus comercial. Ou convencional. Isso quer dizer que pára em todos os pontos do percurso – basta levantar a mão. Mulheres, sacolas, crianças, sacolas, mulheres, bagagens e senhores. Em um transporte desse tipo, pode-se levar tudo quanto o veículo comportar e suportar. Mas quem não suporta são os próprios passageiros. Seja o fedor, o empurra-empurra, o aperto, a mão boba…

 

Há quem diga que suportar um ônibus lotado, em pé e com “encochadas”, consegue superar muitas adversidades. Quem entra numa condução, sabendo que vai ficar em pé por muito tempo, encara a vida de uma maneira que poucos imaginam. Pode ser exagero, mas esta condição pouca gente nem ousa em pensar que pode, obrigatoriamente, enfrentar. Por exemplo, para algumas dessas pessoas, em um carro não cabem apenas seis passageiros: nove, e com folga; três horas na fila do banco é pouco; dividir uma coxa de frango com outras duas é tranqüilo.

 

Formaram-se três fileiras. O meio do corredor estava ocupado com passageiros. Dos mais magros aos mais gordos. Com enormes bolsas e sacolas. Seria uma verdadeira corrida com obstáculos para atravessar aquilo.

 

- Licença… Licença… Licença… – Marcos foi passando.

- Tem espaço… Opa!

- Desculpe!

 

Um pé levantado e não mais consegue encontrar o chão. Pisa no pé de um, na coxa do outro. Segura-se na barra em cima, respira fundo e prende, atravessa aos trancos e barrancos, escorando-se nas pessoas. A blusa, outrora branca, agora estava amarelada. Suor desce pela testa, mas ele conseguiu. Cansou.

 

Num determinado ponto, uma simpática senhora, de idade avançada – denunciada pelos belos cabelos brancos –, decide entrar. Sobe num pulo, engarrafando ainda mais. Uma menina se levanta para ela sentar. A dificuldade ao girar o corpo e acomodar-se, segurando na barra que separa o motorista da agonia, gasta um tempo precioso. Atrás de Marcos, uma dez pessoas querendo descer. E sem paciência.

 

Ele se vê lançado para frente, empurrado por uma força exorbitante – ainda mais porque ele não estava apoiado. Passos confusos e atabalhoados levam-no para fora do coletivo. O medo toma-lhe o coração – poderia estar morto, pisoteado. A respiração acelera. Sua descida seria em oito pontos. Mas, ao ver a quantidade de pessoas que entraria, levanta as mãos e agradece a Deus. Nunca uma caminhada foi tão bem-vinda.

Migrantes

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 17/08/2008

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Os três vinham subindo a rua. A mãe, com malas e sacolas, a menina com um lindo vestidinho verde com detalhes em rosa – presente do último aniversário – e o menino, com uma blusa de frio – própria para o inverno russo. Pareciam felizes.

O sol estava quente. Muito quente. O chão de terra parecia refletir e aumentava ainda mais o calor. As sacolas aumentavam sua agonia e seu enorme cabelo pinicava-lhe o pescoço. O suor escorria pela face e pelos braços. Ela desejava chuva. Ou um rio. Mas um descanso seria perfeito.

Lindas e perfumadas flores enfeitavam a beira do caminho. O calçamento lembrava as ruas francesas, com grandes pedras do tempo colonial. Pétalas caíam do alto, como gotas de chuva. Havia arcos por sobre os três, protegendo-os do sol, soberano. A pequena Maria pulava e dançava, embalada pelo canto dos pássaros. E pela sua imaginação.

O menino João brincava com as pedras. Chutava-as pela rua, como se direcionando o posicionamento de cada uma para o seu bem-estar. Os pés, ainda pequenos, davam passos firmes para um local desconhecido. Não se importava, já que não sabia o que estava acontecendo.

O sol continuava o mesmo. As árvores, os montes e as plantações de milho no caminho eram novidade para as duas crianças. Brincavam a cada passo. Olhar admirado e confuso alternando-se a cada frustração momentânea.

- Está perto?

- Sim.

- Nosso avô já nos viu?

- Não.

- Nem por fotos?

- Não.

O sapato de João estava empoeirado. O vestidinho verde de Maria também. Seus pés estavam machucados de tanto andar. O menino queria colo, mas sua mãe não tinha condições. Caminhavam há um bom tempo. A Caravan preta deixara-os acerca de seis quilômetros da nova casa. Um aperto sufocante. A caminhada era bem-vinda assim que desceram. Mas, dez minutos depois, tornara-se um martírio andar naquele calor.

De longe os avistou. Respirou aliviada: estava próximo. O sorriso tomou-lhe a face e já não mais sentia cansaço. Andou apressada, desejando um abraço dos pais. As crianças andavam mais comedidas, uma vez que desconhecia os avôs – não os viram nem ao menos por foto. A felicidade se misturava com medo de rejeição.

A casa era pequena, com um rio que corria próximo. Lindas árvores, um pequeno chiqueiro, algumas plantações. Sensação de segurança e acolhimento. Ela se lembrou da infância. E do amor incondicional de seus pais. E das lutas para sua sobrevivência. Percebeu aquele lugar como seu melhor lar, de onde não deveria ter saído. As lágrimas começaram a surgir.

O avô levantou o pequeno João e o abraçou com orgulho. A avó ficou aguardando a decisão da neta: abraçada à mãe, escondendo o rosto, temendo não se acostumar com o novo ambiente. Mas a incerteza não durou um minuto. Os tios surgiram do quintal para dar boas-vindas. E os cachorros latiam e uivavam de forma estranha e interessante. Todos se abraçaram e celebraram o retorno dela.

 O sol foi embora, desolado – não notaram mais sua presença. A família, em festa, sorria e clamava por um futuro mais digno. Ela, com as crianças, davam início à nova vida. Uma mistura de realidade e fantasia.

Jantar em família

Por Mateus Modesto | Publicado em Casa de Davi | 13/08/2008

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Os cinco estavam reunidos para o jantar. Deram as mãos e Davi, o pai, começou a oração, agradecendo a Deus pelo dia maravilhoso e pela fartura em sua mesa. Terminada, como de costume, Paulo contou uma piada. Apenas ele riu – como sempre.

Rebeca servia a comida. Davi, a bebida. Ester a menorzinha da casa. E, de longe, a mais faminta. Seus pais diziam que seu estômago era desproporcional com sua altura. Por um tempo ela achou que fosse verdade. Chorava sozinha no seu quarto imaginando um órgão que suplantava o espaço de todos os outros. Até o dia que sua mãe sentou-se com ela e explicou a brincadeira – isso foi quando ela tinha sete anos, há três anos.

- José, por que está comendo tão depressa? Mastigue direito.

- Mãe… vai começar um… programa na televisão… daqui a pouco. – falou de boca cheia.

- Coma devagar. Ou ficará um mês sem computador.

Não deu ouvidos. Antes que terminasse uma garfada, engasgou-se com um pedaço de carne. Ficou desesperado. Seus olhos se encheram de água e seu rosto ficou avermelhado. Seus irmãos ficaram atônitos. Davi levantou-se e segurou-lhe na altura do diafragma, apertando-o. O alívio foi imediato.

- Os pais sabem o que dizem, José – comentou Paulo.

Ele ficou refletindo enquanto comia. Agora, mais devagar. Ficou tão constrangido que não conseguia olhar para seus pais. Não era a primeira vez que desobedecia a um conselho. E em todos os momentos, sempre lhe acontecia algo terrível. Como da vez que perdeu em uma prova ou deixou de ganhar um bom presente de aniversário.

- Você é burro. – disse Ester.

- Burro não. Tolo. “Aquele que odeia a repreensão é tolo”. – retificou-lhe a mãe.

- “Mas todo que ama a disciplina ama o conhecimento”. – completou Davi.

Paulo nada comentou. Sabia que estava errado – e ficou com raiva. Mais uma vez. Terminou sua refeição em silêncio, enquanto os outros riam e contavam sobre o dia.

Havia uma regra na casa de Davi: ninguém podia levantar-se da mesa se houvesse alguém ainda comendo. Mas Paulo desobedeceu-a. Como punição, teve que lavar os pratos, que seria de sua mãe. E por toda a semana.

- Mas pai…

- Quer mais? Que bom, meu filho. Traga-me um copo d’água, por favor.

Ele respirou fundo e não falou mais nada. Poderia complicar-se.

Todos foram para o quarto, ler a bíblia. Estavam lendo a história de Gideão, relatada no livro de Juízes. Quando Paulo terminou de lavar e arrumar a cozinha, passou para o seu quarto. Davi o chamou. E ficou em silêncio, esperando que ele lhe dissesse a lição daquela noite.

- Perdoem-me. Reconheço que errei e fui burro.

- Tolo! – corrigiu-lhe Ester.

- Ou isso…

À espera de um milagre

Por Mateus Modesto | Publicado em Crônicas | 10/08/2008

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Ele tremeu quando recebeu aquela ligação. Sinceramente, desejava que seu celular estivesse desligado ou fora de área. Não podia inventar outra desculpa: já era a quinta remarcação. O dia de ir ao dentista chegou.

Parou em frente ao prédio do consultório do Doutor – não lembrava o nome do profissional. Respirou fundo. Desejou que houvesse uma tempestade naquele momento. Ou fosse atropelado. Ou qualquer outra coisa. Caminhou até a recepção. Até o elevador. Seu coração batia desesperadamente. Quando entrou no elevador, parecia que estava indo para a cadeira elétrica. Começou a suar. A respiração estava ofegante.

No corredor da sala 502, desejou que houvesse um terremoto. Ou um tornado. Entrou e olhou todos. Não deu “bom dia”, não acenou nem sorriu. A secretária estava com um sorriso sinistro e uns óculos assustadores. Ele informou o nome. Errado.

- Não consta nenhum Eduardo Abreu, senhor.

- Mesmo?!

A assistente do dentista surgiu na hora. E o reconheceu.

- Até que enfim, Maurício. – olhou para a secretária e completou – Ele está marcado para as nove e dez.

Ele abriu um sorriso constrangido. Ela mostrou seu lado mais sombrio: franziu a testa, diminuiu os olhos, levantou um pouco os lábios e resmungou baixinho. Ele temeu que estivesse rogando uma praga. Ficou mais desesperado ainda. Começou a suar frio.

Sentou-se. Era o quarto paciente. Pegou uma revista para se distrair. “Se o médico demorar muito, passar uns quinze minutos do meu horário, eu vou embora”, pensou animado. Eram quinze para as nove. De aflito, tornou-se calmo. E alegre. Era impossível um dentista tratar de três bocas em quarenta minutos. Folheou as páginas contemplando seu plano.

Admirava-se com as fotos de artistas e desconhecidos quando a secretária indicou a sala à paciente. Para sua infelicidade, as três pessoas estavam juntas. Seu plano foi frustrado. Abriu a boca, atônito. Sua respiração foi falhando, juntamente com seu coração. Desejava água, uma ambulância, uma luz. Mas o que teve foi o sorrisinho irônico da secretária – ela parecia perceber sua angústia. Ele teve raiva. E quase chorou.

Pontualmente às nove e dez as pacientes saíram da sala. O coração dele acelerou. O sangue esquentou. Poderia ter um infarto naquele momento. Não conseguia respirar, falar, enxergar. Sua visão ficou turva, ficou tonto, branco, roxo. Tanto desespero por conta de traumas de infância: o antigo dentista era seu maior inimigo.

A secretária o chamou. Tudo ficou em silêncio. Ele apenas ouvia seu coração, que aprecia gritar. Passos lentos, caminhando para seu fim. Um filme, assustador, passou em sua cabeça: lembranças inesquecíveis de consultórios. O lugar ficou escuro, opressivo. A assistente esperava na porta: havia uma trama maquiavélica naquele momento. O dentista estava de costas. “Deve estar com uma faca”. Ele se virou e abriu um sorriso falso. “Hipócrita!”, pensou. Ele se deitou. “Vão me anestesiar e roubar meu rim”.

A assistente colocou o babador, deu um guardanapo. Abriu um sorriso e o encorajou. A cadeira foi descendo, subindo, mudando de posição. O dentista jogou aquela luz em seus olhos – imaginou o teto da emergência de um hospital, quando pessoas aparecem ensangüentadas, quase sem vida. Sua boca foi visada e revisada. Todos os dentes vistoriados. Ele apertou os braços da cadeira. Cada vez mais. Suas mãos suavam. O dentista pegou o motorzinho. Era o que mais temia. O som do aparelho dava-lhe desespero. O sorriso da assistente dizia: “Chegou a sua hora! Há-há-há! Quero sangue!”. Ele viu o Doutor fazer uma careta monstruosa, apesar de completamente encoberto pela máscara em sua boca, os óculos e da toca. O motorzinho estava operando.

O dia estava lindo lá fora. O sol brilhava, esquentando o mar. Crianças pedalavam no calçadão e os casais namoravam na areia. Pais desfilavam seus lindos filhos, recém-nascidos. O vendedor de cocos faturava. Adolescentes malhavam nas barras. Aves voavam pelo céu. Navios, iates e pequenas lanchas enchiam o alto-mar. E ele morrendo dentro daquela sala. “O que MacGyver faria?”.

O barulho do motorzinho se confundia com seus gritos. Temia tocar em suas gengivas e bochechas. Devia ter sangue jorrando. Ele estava suando. Seu coração parou. Não conseguia respirar. Desmaiou. Na verdade, apenas desejou. O médico acabou o tormento. Foram os piores dez segundos de sua vida.

Enfim, terminou bem. Ele saiu vivo, com todos os dentes. Observava, agora, tudo ao seu redor. O consultório era agradável, a assistente era muito bonita, assim como a secretária. E, para sua surpresa, o dentista era, na verdade, uma mulher. Coisas que só se percebe quando se está em paz.