Ana foi para o quarto pensar no que poderia fazer para reconquistar Julio. Sabia que teria de ser paciente. Não ser esnobe nem procurá-lo desesperadamente. Nunca fizera isso: sempre fora paquerada.
Ela, deitada em sua cama, listou possíveis momentos nos quais poderia estar com ele – alguns casuais outros construídos por ela mesma: danceteria, sorveteria, shopping center, cinema, jogo de futebol no sábado… O plano começou a ser arquitetado detalhadamente. Mas sabia que sozinha não conseguiria. Ligou para umas amigas.
- Você falou que era “extremamente urgente”. Nem ajeitei direito meu cabelo. Menina!
- Eu também não. Minha maquiagem está horrível. Ainda bem que moro na mesma rua…
Ana explicou sua determinação em reconquistar seu grande amor. E pediu auxílio em cada momento.
- Pode contar comigo. – disse Beatriz – Vamos ensinar-te a como ser elegante nas cantadas, e não vulgar. Julio não vai saber quem é você…
Riram às gargalhadas.
O primeiro passo seria modificar o seu visual. Isso significava cortar e pintar o cabelo. E fazer limpeza de pele. E mudar a forma de se vestir: mais feminina e Jaqueline Kennedy possível. Ganhava, assim, uma personal stylist.
- Com roupas anos 20?
- Ela não é de 1920… – explicava Beatriz. Eu digo com aquela elegância, glamour, beleza… Homem de verdade quer mulher delicada, pele macia, perfumada… Descarado só quer as… Só pegar e largar…
Todas concordaram com um balançar de cabeças. Ana estava empolgada. As amigas, ainda mais. Faziam planos maiores, já imaginando o casamento e a despedida de solteira. Ana sorriu sem graça.
E o projeto tomou sua forma. Ana visitou o salão e inúmeras lojas. Braceletes, anéis, colares, passadeiras, lenços, blusas, sapatos, vestidos de todos os tipos e cores… outra garota. Ela mesma não se reconhecia. Era um modelo para cada ocasião – inclusive jantar especial. Ela sabia que nunca usaria aquilo em condições psicológicas normais. Só mesmo com a ajuda das amigas.
- E se ele não me notar?
- Meu amor, ele estaria cego! Talvez ele não queira você, mas não admitir que você está linda… – acalmava a estilista.
- Ana, outra coisa: ninguém quer uma caixa de Kopenhagen com Bis dentro. Você tem que ser amável, interessante, misteriosa, simpática… Uma gentleman!
Todas riram. Nívea não entendeu.
Ana já estava visualmente diferente. Cabelo Chanel, mais feminina, sorridente e, principalmente, agradável. Não muito diferente da antiga Ana, com exceções do cabelo e da amabilidade extrema. E o primeiro desafio seria em um seminário na faculdade onde Julio estudava. Nenhuma das meninas estava interessada, mas precisariam apresentá-la a ele.
As cinco amigas – Ana, Beatriz, Flávia, Luciana e Nívea – desfilavam pelos corredores da faculdade. Chamaram tanta a atenção dos homens quanto a das mulheres. Risonhas, elegantes, atraentes. Bruno, ao lado de Julio, comentou boquiaberto:
- De onde saíram?
- Não faço idéia, mas creio que são as amigas de Ana.
Eles estavam em um stand. Mas Bruno apenas visitava o amigo, já que não estudava ali. Portanto, foi persuadido por Julio a ir até as meninas. Meia hora depois, tremendo, a passos lentos e tortos, direcionou-se a elas.
- Oi. Vocês não são as amigas de Ana?
- Somos. E você é… Bruno!
Balançou a cabeça indicando sim. Estava admirado com tamanha beleza daquela garota.
- Você não está me reconhecendo?
Ele queria dizer sim, porém não fazia idéia de quem era.
- Luciana! Na apresentação de Davi, o menino de Fernanda, era eu quem…
Os olhos dele quase saltaram para fora. Seu coração parou. Olhou-a de cima a baixo. Deslumbrantemente atraente. Ficou afônico. E começou a suar. Quando descobriu que a loira era Ana, seu sangue parou de circular e não conseguia ouvir mais. “O mundo ficara de ponta-cabeça”, pensou. Nada fazia sentido. “Por quanto tempo fiquei fora?”.
- Ju-Julio está ali no stand…
- Não, não viemos vê-lo. Nívea queria visitar uma amiga. Estamos indo para uma festa.
Bruno entristeceu-se.
- Aparece na exposição do museu quarta-feira… Gostaria de te ver por lá. – disse Luciana.
Bruno apenas balançou a cabeça. As meninas sorriram e foram embora. Ele adiantou os passos para explicar a Julio quem eram as garotas. E, principalmente, sobre o “encontro”.
- Como assim, é jogada dela? – desesperou-se. Quem disse que Ana estará lá? E que me importa! Vamos!?
O que Julio deve fazer?
1) Ir com Bruno para a exposição?
2) Convencer Bruno a não ir?
3) Deixar Bruno ir sozinho?
Até segunda-feira.